Ramones
Os Ramones são uma das maiores referências do punk rock, sempre conhecidos por suas letras diretas, poderosas e carregadas de críticas sociais. No ano de 1985 lançaram a música "Bonzo Goes to Bitburg", uma canção que se tornou o um verdadeiro símbolo de protesto contra uma decisão polêmica do então presidente dos Estados Unidos na época, o senhor Ronald Reagan. Nesta análise, vou explorar o contexto político por trás desta música, seu conteúdo crítico, a postura de Johnny Ramone — guitarrista da banda e apoiador incodicional de Reagan — e as contradições que surgem dessas relações conflituosas.
Contexto Histórico e Político
Para entender a força da música "Bonzo Goes to Bitburg", é fundamental situá-la no cenário da Guerra Fria. Naquele período, os Estados Unidos estavam envolvidos em uma luta ideológica contra o comunismo, enquanto mantinham uma relação complexa com a Alemanha Ocidental. Ronald Reagan, então presidente dos EUA em 1985, realizou uma visita para lá de discutível ao Cemitério de Bitburg, na Alemanha, onde descansam (pasmem!) soldados da Waffen-SS — a força militar ligada ao regime nazista. Sua visita gerou uma enorme controvérsia internacional, pois muitos viram na ação uma banalização do nazismo e uma insensibilidade com relação às vítimas do Holocausto (insensibilidade é pouco, vejo como descaso mesmo).
Reagan tentou justificar sua visita alegando que o local também incluía túmulos de soldados aliados e que a visita não tinha a intenção de homenagear nazistas (se sua visita não tinha intenção de homenagear, seria o que então???). Ainda assim, a decisão foi amplamente criticada por representantes de várias nações, vítimas do nazismo, grupos de direitos humanos e, claro, o vocalista Joey Ramone, que era descendente de judeus, que a interpretaram como uma afronta à memória das vítimas do regime totalitário.
Análise da Letra de "Bonzo Goes to Bitburg"
A música dos Ramones é uma resposta direta a esse episódio. Com ironia e sarcasmo, a letra satiriza Reagan ao denominá-lo "Bonzo", uma referência ao personagem de chimpanzé que o então presidente costumava imitar (para quem não sabe, Ronald Reagan antes de ser presidente dos E.U.A foi ator hollywoodiano). Ao adjetivá-lo pejorativamente, inclusive no título da canção, enfatiza o tom de crítica. O termo “Bonzo” funciona como uma personificação, zombando do líder americano e de sua postura contraditória. Na letra da banda há menções à hipocrisia do então presidente Reagan, que parece admirar símbolos do passado nazista enquanto fala em valores democráticos. O refrão e versos carregam uma crítica ao fato de que, por trás de discursos de liberdade e justiça, há interesses políticos (que novidade isso) que fazem vista grossa às atrocidades do nazismo. A canção denuncia uma postura de ignorância e conivência, uma tentativa de minimizar o horror do passado em nome de interesses políticos e estratégicos, um verdadeiro ato nefasto.
Johnny Ramone e as Controvérsias Políticas
Deixo claro aqui que sou fã incondicional dos Ramones, mas não concordo com a posição do guitarrista da banda (tem um ditado que diz que: se você é fã, não queira conhecer a vida pessoal do seu artista preferido). Johnny Ramone, guitarrista da banda, era conhecido por suas posições políticas conservadoras e por seu apoio a Ronald Reagan. Este posicionamento diverso de seus membros gerou inúmeros questionamentos, pois a música do grupo, embora por vezes fizesse uma crítica direta a Reagan, outras vezes abordava temas de resistência social, injustiça e questionamento de autoridades. A relação de Johnny com Reagan representa uma contradição em relação à mensagem da música. Sendo alguém que apoiava um presidente cujas políticas muitas vezes favoreciam o conservadorismo, o militarismo e, em certos casos, a repressão social, sua postura gerou debates internos e externos (bem, todos sabem que Joey e Johnny tiveram muitas diferenças, e em certo momento da carreira apenas tocavam juntos, chegando ao ponto de nem se olharem nas apresentações). Essa contradição revela a complexidade da adoção de um posicionamento político na época: um artista que, por um lado, defendia seus valores pessoais, mas, por outro, apoiava figuras que poderiam estar em oposição a eles (pois é, Johnny era uma personalidade difícil).
Contradições e Interpretações
A situação de Johnny Ramone exemplifica um paradoxo: um artista que, enquanto apoiava Reagan, expressava críticas à sua política através de sua banda. Isso reflete a multiplicidade de opiniões existente dentro do movimento punk, muitas vezes marcado por um espírito de contestação e resistência, mas também por diferenças ideológicas. A música pode ser interpretada, de forma mais ampla, como uma denúncia à admiração cega por líderes políticos que representam autoritarismo, racismo e intolerância (parece que estou falando de um ex-presidente do Brasil). Ela também evidencia as complexidades e contradições pessoais que envolvem figuras públicas, especialmente em um período de forte polarização política. Neste ponto, me recordo de vários ícones de bandas de punk rock, heavy metal entre outros estilos de música pesada que adotaram posicionamentos discutíveis também (não vou realizar citações, mas quem escuta o estilo de música sabe quem são os “prezados”).
Impacto e Legado
"Bonzo Goes to Bitburg" teve um impacto significativo na cena musical e política. Sua mensagem de resistência ajudou a consolidar o punk como uma ferramenta de protesto contra injustiças e ações controversas de figuras de poder. A canção permanece relevante até hoje, como um exemplo de como a arte pode confrontar e questionar decisões políticas e atitudes públicas (Ramones é cultura de primeira classe). A música também desafia a ideia de que os artistas sempre se alinham às posições de suas próprias obras ou de seus apoiadores. A postura de Johnny Ramone, apoiando Reagan enquanto a banda criticava suas ações, mostra que as opiniões pessoais podem divergir das mensagens artísticas, revelando a complexidade do cenário político-cultural da época.
Conclusão
"Bonzo Goes to Bitburg" é mais do que uma simples música punk, é um protesto contundente contra uma ação política polêmica e uma reflexão sobre as contradições de figuras públicas. Ao analisar seu conteúdo e o contexto em que a música foi criada, percebe-se a importância da arte como arma (no sentido figurado) de resistência e crítica social. Além disso, a relação de Johnny Ramone com Reagan ilustra como opiniões pessoais podem divergir de mensagens artísticas, revelando as complexidades do envolvimento político de artistas. Essa análise reforça que a música, especialmente dentro do punk, serve como um espelho das tensões sociais, políticas e morais de seu tempo (e também em tempos atuais). E seu legado nos lembra do poder da arte de provocar reflexão e questionamento, mesmo diante de posições divergentes ou contraditórias.
Marcelo Franco
Referências:
Ramone. J. (1997) Commando: A autobiografia de Johnny Ramone.
Dee Dee Ramone (2013) Coração envenenado.
Joey Ramone (2013) Eu dormi com Joey Ramone.
Marky Ramone (2013) Punk Rock Blitzkrieg: minha vida como um Ramone.
Hey Ho Let’s Go (2020) A história dos Ramones.
Ramones (2022) Na estrada com os Ramones.
Ramone, J. (1997). Commando: The autobiography of Johnny Ramone.
Ramone, J. (1997). Commando: The autobiography of Johnny Ramone.
Ramone, J. (1997). Commando: The autobiography of Johnny Ramone.



