terça-feira, 12 de março de 2024

O que leva um pesquisador a investigar o fenômeno da morte?

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O que leva um pesquisador a investigar o fenômeno da morte? Essa é uma pergunta que me faço muitas vezes, pois cada vez que falo sobre minha pesquisa as pessoas perguntam: “Por que?” Sei que é um assunto complicado e cheio de tabus, mas me pergunto: por que não pesquisar? Vivemos em uma sociedade marcada pelo apego a coisas materiais, e que parece ter deixado de lado lembrar que somos seres finitos. Frente a esta situação verifiquei em vários momentos que existe um despreparo de enfrentamento quando esse momento chega. E aqui me refiro tanto ao despreparo da pessoa que enfrenta o fenômeno, pois todos nós vamos passar por esta etapa um dia, quanto (e principalmente) ao despreparo dos profissionais que lidam com o momento da morte. Sobretudo das pessoas que trabalham em hospitais, asilos e outros locais destinados a cuidar de pessoas idosas e/ou enfermas. A forma como as pessoas compreendem a morte é muito singular, depende muito de seu entendimento e o modo como as pessoas ao longo de sua vida lhe fizeram entender a finitude. Desde cedo as pessoas vão ter contato com as perdas, seja de um ente querido ou de um animal de estimação, mas a realidade desta perda vai ter sentido a partir da adolescência, época a partir da qual o indivíduo começa a entender o que realmente é a morte. E, desde então, evidenciamos que este fenômeno é alvo de adiamento ou repulsa, que é a única certeza que temos mas que é carregada de circunstâncias incertas quanto ao seu antes, durante e depois. Se inicia já diante dos primeiros contatos com a morte a repulsa ou negação acerca da ideia representada pelo fenômeno que transforma presença em ausência.

A consciência da morte não é algo inato, e sim produto de uma consciência que capta o real. É “por experiência”, como diz Voltaire, que o homem sabe que há de morrer. A morte humana é um conhecimento do indivíduo (MORIN,1997, p. 61).

  

A possibilidade de melhor se entender e por isso aceitar a finitude comumente se verifica na fase da velhice, quando entendemos que esta é a última etapa do ciclo de desenvolvimento humano. Mesmo assim, a cultura em que vivemos nos força de alguma forma a negar que em algum momento podemos não estar mais presentes neste plano, e a vida cada vez mais atribulada e cheia de imediatismos muitas vezes não nos permite tempo para reflexões mais abstratas e sobre eventos futuros como a morte.

Muitas vezes ao longo da vida vamos presenciar situações nas quais inúmeras desculpas serão utilizadas para adiar falar sobre o assunto, e mesmo quando tivermos a possibilidade de discutir o tema, muitas vezes seremos induzidos a negar e adiar, como se fosse um assunto proibido. Não podemos deixar de lembrar que o ser humano se diferencia dos outros animais por ser o único a ter consciência sobre a finitude, tendo a real representação do que é de fato a morte.

Marcelo Franco

* MORIN, E. (1997). O homem e a morte. Rio de Janeiro (RJ): Imago.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Ortotanásia, nem antes e nem depois.


Fonte 1

Em nossas vidas o nascer e o morrer pertencem da mesma forma na vida de uma pessoa. São como se fossem pesos de uma balança: são como extremidades, pontos que nunca se cruzam, pólos que conduzem manifestações de todos os seres humanos. Quando um indivíduo entra em estágio terminal, os profissionais direcionam esse paciente. Há um cuidado sem sofimento, dispensando a utilização de métodos inavasivos de prolongamento da vida, sendo a intenção principal e primordial a de não o adiamento da morte e ao mesmo tempo não provocá-la. Como o objetivo é de minimizar o sofrimento e a morte do paciente vai ocorrer dentro de uma situação de terminalidade da vida, são interrompidas medidas extraordinárias, reconhecendo-se que existe uma condição humana de mortalidade e que o conhecimento médico atual também é limitado. A ortotanásia ainda nos dias atuais é sempre vista como uma forma  de não investimento na vida de um paciente, mas a obstinação terapêutica seria ralmente a saída para pacientes com doenças terminais? Analisando por outro ângulo, poderíamos verificar como algo inútil e desnecessário, e apenas estaríamos prolongando um morrer. Todo ser humano tem o direito de morrer sem sofrimento, a morte sempre traz dúvidas, e quando se diz "deixaram morrer" se pensa que não se investiu naquela vida. Ortotanásia é a arte de morrer bem, de forma humana e correta, sem abreviar a vida, e melhor, sem prolongar o sofrimento. De alguma forma a medicina é colocada frente a um dilema, estaria prolongando um morrer ou savando vidas?

A medicina deve sempre buscar tratar o doente, e não a doença, dando um maior valor a vida, deixando de lado as terapêuticas invasivas. Neste contexto, torna-se necessário pesquisar o tema em questão, para promover um melhor entendimento do assunto entre os profissionais da área e ao mesmo tempo desmistificar esse assunto que ainda é um tabu em nossa sociedade. Quando o profissional da saúde tem uma melhor compreensão do tema, além de trazer o significado da representação social de morte no contexto cultural, a ortotanásia é entendida como uma forma natural de morrer.

Fonte 2

A denominação de ortotanásia é atribuída ao professor da Universidade de Liege na Bélgica, Jacques Roskam. Segundo ele, existiria uma possibilidade de morte justa, entre eutanásia e a obstinação terapêutica. A palavra ortotanásia, que tem sua origem no grego (orto: certo, thanatos: morte), pode ser considerada como a "filosofia da boa morte", representando a morte do indivíduo no momento certo. Focando na adesão de procedimentos paliativos, buscando de alguma forma sempre o controle da dor, esse processo opta por descartar, ou mesmo restringir, tratamentos invasivos e agressivos que tentam adiar o fim da vida, a fim de não comprometer a qualidade de vida do paciente, que deveria estar sempre em primeiro plano. Podemos dizer que a ortotanásia, de forma simples, seria o meio-termo do nem antes, como ocorre com a eutanásia, e nem depois, como no caso da distanásia.

Questões fundamentadas na promoção do bem-estar físico, espiritual, psicológico, bem como éticas, são de suma importância para que o paciente sinta-se não apenas como um objeto nas mãos de terapêuticas inúteis, respeitando assim sua dignidade e autonomia, diminuindo as dores e os sofrimentos impostos no processo de morrer. Na tríade entre profissionais, família e paciente sempre existirá a necessidade de um suporte emcional, pois nesse contexto todos sentem a perda de uma vida, e podem vir a desenvolver uma forte depressão ou mesmo um luto patológico. É preciso aceitar que a morte faz parte de nossas vidas, e precisamos enxergá-la, como se fosse uma companheira que nos ronda a todo instante e não nos pede licença para entrar em nossas vidas.

A morte é uma realidade vivenciada diariamente no contexto hospitalar e a ortotanásia é a maneira de aceitar o fim de nossas vidas. É o momento em que o paciente não tem mais chances de se curar e a medicina suspende o tratamento, respeitando sempre a vontade deste paciente, ou mesmo seu representante legal. Nesse momento, visando a qualidade de vida do ser humano, a medicina realiza apenas formas terapêuticas, evitando que o paciente sofra, visando a morte no tempo certo, podendo o enfermo escolher entre manobras tecnológicas que de alguma forma irão apenas prolongar a sua vida, porém, por outro lado, poderão também prolongar seu sofrimento.

Marcelo Franco

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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Chris Cornell, a morte trágica do garoto de Seattle


Fonte 1
       
            Nascido em um bairro de classe média, Christopher John Boyle veio ao mundo no dia 20 de julho de 1964, na cidade de Seattle. Filho de Edward Boyle e Karen Cornell, ele e os irmãos acabaram por trocar para o sobrenome de solteiro de sua mãe, com a separação dos pais. Chris desde cedo era muito ligado à música, tocou piano, guitarra e logo após iniciou na bateria, e sempre buscava inspiração nas bandas de sua época. 

Mas a vida de Chris começou a mudar desde a separação de seus pais. O futuro vocalista do Soundgarden morava em um bairro que era barra pesada e o envolvimento com drogas se tornou algo inevitável. Segundo o próprio vocalista, quem morava no bairro ou era usuário ou traficava, e no seu caso, ele estava enquadrado na primeira situação. A separação de seus pais, foi um  momento que o deixou muito fragilizado emocionalmente, acrescido ao uso das drogas, Chris  acabou por se deparar pela primeira vez com um quadro depressivo. Segundo o próprio Chris, nesta fase ele enfrentou um momento de agorafobia, durante o qual ficou durante  dois anos sem falar com ninguém. Tendo sido expulso três vezes da escola que estudava, Cornell já com dezesseis anos decidiu que precisava trabalhar e foi trampar em um restaurante. 



Fonte 2

Porém, Cornell apesar de todas essas infelizes questões, começou a tocar bateria em algumas bandas, mas surpreendentemente foi sua voz que começou a se sobressair, e assim, apesar de tocar bateria, acabou se tornando vocalista devido a ótima voz que ele apresentava. Em 1984, a vida de Cornell mudou, e ele junto a Hiro Yamamoto (baixo) e Kim Thayil (guitarra), formam o Soundgarden. Um detalhe aqui, é que Chris cantava e tocava bateria. Mas logo se junta a eles o baterista  Scott Sundquist, e assim Chris Cornell pode se dedicar apenas aos vocais. A banda no decorrer da carreira sofreu algumas alterações, Matt Cameron assumiu as baquetas e o contra baixo passou para as mãos de Ben Shepherd. 

A banda gravou alguns discos e se desfez em 1997, e Chris entrou numa temporada na qual se afundou de cabeça nas drogas e no álcool, voltando a vivenciar a escuridão da dependência, dando indícios que sua fragilidade emocional ainda se fazia presente. Mesmo com esse momento de escuridão ele seguiu na carreira solo, formando, na sequência, a banda Audioslave (Chris Cornell mais os ex-integrantes do Rage Against de Machine). Um grupo que fez um verdadeiro sucesso com uma junção surpreendente dos vocais de Chris mais o som dos três remanescentes da fusão de metal com rap. 

Na época, apesar de todo sucesso, o vocalista da recém formada banda Audioslave resolveu se internar, e ficou dois meses em recuperação. Após, seguiu tocando em frente a vida, mesmo com as sombras da dependência que volta e meia se faziam presentes. Em 2003 ele se separou da primeira esposa, com quem teve uma filha, tendo sido um divórcio conturbado. Mas, logo em 2004 ele se casa com Vicky Karayiannis, com quem teve dois filhos. Mesmo com uma família ao lado, a depressão ainda rondava a vida de Chris Cornell, e ele acabava por se sentir impotente em lutar contra essa terrível doença.



Fonte 3

Os conflitos na vida de Chris foram um dos principais pontos para sua desorganização emocional se fazer presente, além é claro, do abuso de álcool e drogas, potencializando um sentimento de tristeza que não deixava de acompanhar a vida do vocalista. Em 2010 o Soundgarden retorna à ativa com força total com a formação clássica. Mas após uma apresentação em Detroit, a história de Chris Cornell terminou em 18 de maio de 2017, quando foi encontrado já sem vida por seu segurança particular no hotel onde estava hospedado. Chris havia se enforcado aos 52 anos, encerrando assim uma carreira de grande talento. E mais uma vez o mundo da música perdia um brilhante músico para a depressão.

Marcelo Franco
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quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Ian Curtis, entre a depressão e o Joy Division


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Os efeitos sonoros transmitidos pela música feita pela banda Joy Division não compactuam com a tradução de seu nome que significa, literalmente, “divisão alegre”. O grupo lança sobre os ouvintes efeitos sonoros em geral melancólicos e em certos momentos até mesmo sombrios e nebulosos. O Joy Division é um marco na música mundial. Nascido em 1976 na cidade de Manchester, o novo estilo de música influenciou tantos outros grupos importantes. Mas você deve estar se perguntando, sobre o que tem a ver depressão com esta importante banda e a resposta tem a ver com um integrante em específico, um indivíduo emblemático e com um comportamento mais representativo ainda. Ladies and gentlemen, este indivíduo é o Sir Ian Curtis, o frontman da banda pós-punk Joy Division, cuja curta mas intensa trajetória é tão marcante quanto o sucesso da banda.


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Ian era um jovem rapaz que se casou muito cedo e amou intensamente sua também jovem esposa. Curtis foi o primogênito de dois filhos do casal Kevin e Dooren Curtis. Ian Curtis era um dos principais compositores da banda Joy Division  e suas letras impunham as típicas temáticas melancólicas e depressivas que eram embaladas por acordes inovadores. No início de sua vida o jovem Ian já demonstrava interesse por filosofia e literatura, foi um leitor de Kafka, Dostoiévski e Sartre, e  era um apaixonado por poesia moderna.

Mas infelizmente Ian Curtis tirou a própria vida em 18 de maio de 1980, quando ele tinha apenas 23 anos. O vocalista do Joy Division já estava doente há bastante tempo, mas ninguém notava, até mesmo porque o próprio Ian se negava a falar sobre suas dificuldades emocionais. Nesta data, que marcou uma das maiores perdas para a música mundial, os demais integrantes da banda - Bernard Sumner (guitarrista), Peter Hook (baixista) e Stephen Morris (baterista) - além de perderem o vocalista e amigo, viram o futuro do Joy Division ruir, pois, ao meu ver, o Joy Division sem Curtis não existe. Ian cometeu suicídio pouco antes da banda entrar em turnê, fato que nos reforça a ideia de que a sombra da depressão já estava presente ali há algum tempo. Na época, importante frisar, uma das questões que o afligiam era a relacionada às consequências da carreira que prosperava, mas impunha constante afastamento da esposa que amava. Esta era uma das aflições  que, somada a outras condições, o atormentavam de maneira implacável e fizeram Ian Curtis tirar a própria vida.


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O jovem vocalista dançava de forma frenética nos palcos, uma maneira que chamou a atenção e que muitos tentaram imitar, mas sem o mesmo êxito do eterno vocalista do Joy Division. A banda pioneira do pós-punk deixou uma forte marca na história da música, com suas melodias melancólicas discorria sobre um cotidiano depressivo e introspectivo que pairava na época. A banda gravou apenas dois álbuns de estúdio na época, o Unknown Pleasures (1979) e Closer (1980),  o restante dos registros são coletâneas e singles que foram sendo lançados após a morte do vocalista.

Podemos dizer que a depressão é uma doença silenciosa, ela chega como uma sombra e sem avisar, mas se prestarmos bem a atenção ela se faz presente. Mas o que nos leva a não notar a sombra de uma depressão? Ian vivia uma vida complicada, era um indivíduo que se mostrava sensível e sem forças para lutar contra o silêncio da depressão. Essa doença não respeita fronteiras, é um mal que assola a população mundial, sem escolher cor, raça, credo ou até mesmo o estilo de vida que se leva, bastando um sopro para ela se fazer presente. E com Ian Curtis não foi diferente, acometido pela depressão, ele sofria com as alterações de humor, e uma profunda tristeza, associada aos sentimentos de baixa autoestima, desesperança, amargura, irritabilidade, angústia, apatia, falta de motivação, entre tantos outros sintomas associados à depressão. Não podemos esquecer de aqui mencionar que tristeza é um sentimento temporário e decorrente de algum acontecimento difícil de enfrentar, em geral relacionado a dificuldades financeiras, desentendimentos com cônjuge, familiares ou amigos, etc. Mas diante dele em geral  encontramos uma maneira de superar as dificuldades e seguimos nossas vidas. Porém em um quadro depressivo, como no caso de Ian Curtis, o humor permanece deprimido de forma contínua, e o indivíduo não encontra forças para se livrar dessa dor e a vida se torna um tormento que parece eterno. Mesmo por vezes sem ter um motivo aparente, a depressão pode se instaurar e o sorriso desaparece, a alegria se transforma em obscuridade, os dias se tornam cinzas e a depressão mostra sua face. Ian Curtis encurtou a própria vida, mesmo sendo acompanhado por profissionais e sendo medicado, Ian sucumbiu diante dessa doença traiçoeira e silenciosa.


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Do lado musical, ficam os ótimos registros da banda, nos quais podemos conferir a maneira frenética de Curtis dançar, parecendo estar tendo espasmos ao vivo. Acerca desta característica própria, não se pode deixar de mencionar que Ian convivia também com a epilepsia, moléstia que tornava o viver ainda menos fácil para o jovem músico.

Joy Division apesar de muito breve foi um marco para a música, um começo de uma nova geração e que segue influenciando descendentes até os dias de hoje. Curto demais Joy Division. 

Marcelo Franco

*Joy Division - Unknown Pleasures. A biografia definitiva da cult band mais influente de todos os tempos.

*Tocando a Distância: Ian Curtis e Joy Division.


sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

No fim, podemos ter vários fins


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Sim, eu sei, claro que sei. Qualquer pessoa que der sequência à leitura deste texto vai se questionar, talvez até mesmo me xingar de todas as formas possíveis. E vou compreender totalmente mesmo as reações mais expressivas, mas preciso seguir falando e discutindo sobre esse tema. A fim de facilitar esta breve abordagem, não citarei como tema destas linhas a tal palavra proibida que categoriza o assunto como tabu no âmbito social. Assim, romantizando um pouco a fim de tornar a leitura mais leve, “light”, adotarei o termo finitude humana. Um dos únicos tabus que persistem em atravessar os tempos, e persiste como algo que afronta a vida das pessoas, um fenômeno dito como negativo, sombrio, funesto, sinistro, trágico, e qualquer outro tipo de adjetivo que possamos relacionar para algo visto como inegavelmente ruim. Mas a morte tem outros sentidos que de certa forma a sociedade nega, talvez para perpetuar o véu que encobre e torna misterioso o verdadeiro sentido de nossas vidas. Falar (ou escrever) sobre finitude implica intrinsecamente abordar a vida, o transcorrer do tempo de vida e as motivações que permitimos que nos impulsionem rumo ao seu esgotamento. Esta correlação é tão íntima que todos os aspectos relacionados ao tempo de vida como idade, envelhecimento, legado dos falecidos antepassados acabam por serem evitados ou tratados com mínima ênfase, dada a influência do tabu existente que relaciona o conceito de finitude apenas a aspectos extremamente ruins. Aliás, sendo as redes sociais reflexo dos valores que são exaltados, facilmente é possível compreender o que move a vida atualmente, quais as reais necessidades e excessos da maior parte da sociedade em que estamos inseridos. Ao exalar muito narcisismo, egoísmo e falta de EMPATIA, entre outros tantos maus valores (e alguns poucos genuinamente bons, é verdade!), percebe-se quão preocupadas em "parecer" estão as pessoas, enquanto, salvo melhor juízo, deveríamos estar preocupados em "ser", diante do cronômetro que nos impedirá a continuidade de existência, em um dia e hora qualquer. Parecer é imagem, embalagem, não permite que se transmita conteúdo de significado associado a bom valor. É apenas quando os bons valores que emolduramos diariamente estão contidos em nossa essência que criamos bom conteúdo, de fato. Parecer está relacionado ao outro, não a si mesmo e por si só já denota o quanto a maior parte de nossa sociedade não está preocupada em conhecer e entender a si mesma e seus fenômenos.

A morte é um fenômeno sobre o qual não temos controle, não dominamos, faz parte do desconhecido, do obscuro, do duvidoso, do contestável, etc. Carregamos esse temor pela morte, pura e unicamente por sua negação que a associa a significados ruins e a perpetua como tabu, dificultando a aceitação do tema em nosso quotidiano. As perguntas sem respostas são inúmeras, e uma delas é “o que tem lá do outro lado?” ou “o que vem depois?”. Toda essa incerteza nos causa angústia e consequentemente medo, que é um sentimento natural frente a algo desconhecido ou mesmo indomável. 

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Por ser um momento singular e intransferível não vamos vivenciar esse fenômeno mais de uma vez, e mesmo assim ele pode acontecer de inúmeras maneiras, desde um simples dormir e não acordar, passando por um escorregão no meio fio que faz bater a cabeça num paralelepípedo, até um acidente de automóvel. Não sabemos quando e nem como realmente vai acontecer e é isso que nos deixa intrigados, curiosos e com medo. Não é por acaso que vários filmes e seriados de televisão abordam o tema do ser imortal, esse desejo ou mesmo fascínio de viver eternamente ronda a mente humana. Pois, se pararmos para pensar, a morte nos ronda desde que nascemos, e rechaçamos essa possibilidade em nossas vidas, evitamos falar sobre ela até mesmo com a desculpa de que se tocarmos no assunto, ela aparecerá, e com isso mantemos firme o tabu com relação à morte. Mas estamos caminhando em direção à morte desde que nascemos. Martin Heidegger discute isso de forma brilhante no livro “Ser e tempo”.

Mas por outro lado, se constantemente de forma consciente e incessante pensássemos na morte, não teríamos a mínima condição de realizarmos nossas tarefas diárias, o viver seria prejudicado, pois ficaríamos neuróticos de tanto pensar em como seria esse encontro e não faríamos mais nada com medo de que o fenômeno pudesse acontecer a qualquer momento. Mas de maneira inconsciente ela estará sempre presente e essa necessidade de perpetuar a vida, é expressa de várias maneiras, demonstrando assim o medo que a morte nos provoca. 

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Não quero me estender neste pequeno texto, mas lembro que quando nos deparamos com a realidade de que um dia não vamos mais existir, passamos por crises pessoais e é justamente nestes momentos que começamos a pensar no sentido de nossas vidas. E qual meu propósito em postar um texto como esse em pleno fim de ano, um momento de muitas festas e alegrias, onde “parece” que todos estão “oceanicamente” felizes ? Apenas lembrar que somos finitos, que podemos comemorar o fim de ano tranquilamente, mas de forma comedida, não cometendo excessos e muito menos imprudências, que, mesmo que cometidas a qualquer (e por um breve) momento, podem deixar marcas para o resto de nossas vidas.


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Desejo uma ótima virada de ano a todos e que 2024 possa ser de muita paz e harmonia. E que possamos ver guerras e outras consequencias catastróficas apenas nos filmes de ação, de maneira a conscientizar nossa sociedade acerca dos valores que nos conduzem e da monstruosidade de nossas escolhas que constroem nossa reputação e legado. 

Marcelo Franco


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terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Entre nuvens

 

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Entre nUvenS,

E o VenTo,

MeU silÊnciO.

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Me peRdi no paSsadO,

EsqueCi mEu presEntE,

OnDe estarÁ meu FutuRo?

%

O pássAro fuGiu da fOto,

MaS o CÉU ainDa está lá...

Azul e líMpidO.

&

EntRe o rÚstico

Ao ÍntimO,

do reFúgio

Ao iNtríNseco!



Marcelo Franco


                                        Fonte 1: https://br.pinterest.com/pin/5418462043159850/


terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Simbologia da morte, o homem e sua visão da finitude

                                                                                                Imagem 1


Ao longo dos tempos as representações da morte e ao redor do mundo são inúmeras, a imagem da caveira de certa forma se configurou em um símbolo da morte, cuja associação é praticamente instantânea e universal. Podemos melhor entender e dimensionar a relevância das representações no contexto social ao constatarmos que uma mesma imagem ou figura origina distintos significados subjetivos, tendo em vista as diversidades sociais e culturais nas quais estamos inseridos. 

As várias resistências que emergem instantaneamente (quase como um reflexo) diante de um símbolo associado à morte traduzem e mantém o fenômeno como um tabu, estando embasadas no mitológico, no religioso, no simbólico, no abstrato, sinteticamente, na questão subjetiva do ser humano. As representações da morte durante muito tempo se mantêm consolidadas por questões espirituais, religiosas e místicas, através da defesa inconteste que visa a manutenção de preceitos e rituais que enaltecem e perpetuam a simbologia. Mas além destes aspectos, a representação da morte se fez presente com o passar dos anos também através da expressão artística, podendo sua manifestação ser observada em alegorias, construções, obras de arte, etc. Atualmente podemos notar que a expressão da morte permeia nosso cotidiano e encontra-se visível através de vários tipos de representações, manifestamente observáveis em diversas áreas. Até hoje ainda podemos apontar que, a sociedade conseguiu assimilar o propósito do viver, mas ainda tem dificuldades de entender o morrer. De certo modo, ainda interpretamos a morte como uma afronta a vida, algo contraditório a vida, um não viver. Mas por incrível que pareça, a morte tem seu significado positivo, pois ela vai se fazer presente para acabar com a dor do ser, do moribundo, do paciente terminal, a dor que a própria ciência não controla mais.

 Discutir sobre as representações da morte vai nos trazer várias indagações, pois dependendo do local ou região, a representação poderá traduzir-se em um ou outro tipo de significado, e isso deve ser respeitado por quem observa externamente, uma vez que não partilham necessariamente dos mesmos fundamentos sociais desta interpretação exposta. A diversificação e a possibilidade de enxergarmos a morte de maneiras múltiplas nos mostram que a morte não é um tema fácil de ser abordado e discutido. Pode-se até mesmo indagar o gênero do substantivo: seria morte uma palavra (no caso substantivo) com denotação de gênero masculina ou feminina? Esta é uma resposta que vai depender da representação que ela traz individualmente para cada pessoa e da cultura que ela está inserida. No caso adotaremos o tratamento feminino do termo, predominante em nossa sociedade. Fato é que independentemente do aspecto sócio-histórico-cultural envolvido, a representação da morte é ampla e frequente, havendo inclusive aspectos em comum observados ao longo dos tempos.


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Assim como predominante a sua denotação feminina, podemos também afirmar como característica praticamente universal o fato de a morte manter-se atrelada a um ritual, seja qual for o tempo ou espaço. Verificada a ocorrência do fenômeno, invariavelmente tem início um rito que envolve tanto a pessoa que está morrendo quanto parentes e amigos próximos (às vezes até desconhecidos). Podemos dizer que, a morte é uma verdadeira cerimônia pública e organizada, onde o próprio individuou que morreu organiza indiretamente de certa maneira esse ritual, que ainda persiste em ser um tabu até os dias de hoje.

Como percebe-se, apesar de não poder ser definida através de uma simbologia única e universal, a morte encontra-se representada por meio de distintas formas de manifestações sociais, artísticas e culturais. Encontramos a sua representação presente em edificações, ruas, filmes, teatros, cinemas, músicas, livros, esculturas, pinturas e até mesmo em histórias em quadrinhos.

Marcelo Franco



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Imagem 2: https://br.pinterest.com/pin/59039445098133443/  Desenho de Pawel Kuczynski

Uma Análise Crítica da Música dos Ramones: “Bonzo Goes to Bitburg"

Ramones Fonte:  https://br.pinterest.com/pin/425238389833489467/ Os Ramones são uma das maiores referências do punk rock, sempre conhecidos ...