segunda-feira, 13 de junho de 2022

Bullying e a filosofia das agressões verbais e não verbais

 







            Até que ponto é legal colocar apelidos? Como podemos identificar se um aluno está sendo alvo de alcunhas indesejáveis? Sabemos que os alvos geralmente são os indivíduos mais tímidos, quietos, inseguros, que geralmente possuem poucas amizades e se sentem incapazes de reagir aos atos de violência, seja ela verbal ou física. A escola, enquanto ambiente educativo, deve se posicionar e adotar medidas para controlar o bullying, pois, se bem aplicadas, podem contribuir positivamente para diminuir a cultura de não violência em nossa sociedade.

            O fenômeno bullying tem origem na Suécia, a partir da década de 1970, onde o professor Dan Olweus começou a fazer pesquisas sobre o problema da violência verbal entre iguais. O bullying é um subconjunto de comportamentos agressivos que estão envolvidos em situações de insultos, assédios, intimidações, exclusões e discriminações de gênero. Se traduzirmos literalmente bully, podemos dizer que significa: valentão, tirano, brutalizador ou amendrotador. O praticante de bullying utiliza atitudes repetitivas e sem motivo aparente maltrata, intimida, provoca dor, angústia e sofrimento à vítima. Ressalte-se que, em muitos dos casos, o próprio praticante de bullying já foi alvo desta prática que, neste caso, é fundamentada em seu sentimento de frustração e desprezo à sociedade que permitiu a sua agressão em tempo pretérito.

            Geralmente, um apelido é dado por um amigo, devido a uma característica singular de quem recebe. Porém, geralmente a concessão é feita por uma característica que a vítima não gosta de alardear, tais como um simples uso de óculos ou uma característica distinta daquela comumente tida como “normal” em alguma parte do corpo. Todavia, uma alcunha pode por vezes tornar-se tão embaraçosa que a vítima pode ter a vir que mudar de escola, de residência ou ambos.

Crianças que sofrem o bullying estão mais propensas a desencadear danos à saúde, tais como: depressão, ansiedade, irritabilidade, agressividade, pânico, desmaios, insônia, estresse entre outros sintomas. Com relação a esta situação, podemos analisar a importância do desenvolvimento de uma cultura de formação de valores coletivos, fomentando atitudes que venham a permitir uma convivência harmoniosa dentro do grupo escolar. A cultura dos apelidos no Brasil sempre existiu, e nunca vai deixar de existir, a questão é: até que ponto esses apelidos são legais?

Dentre os aspectos a destacar, temos que as ações, condutas, pensamentos e ideias que influenciam as decisões e práticas dos grupos que as envolvem, são capazes de promover a formação de características próprias de um ambiente. E, apesar de existirem pesquisas referentes ao tema na literatura educacional, ainda não se mostram suficientes para diminuir a incidência das alcunhas agressivas. A necessidade do estudo do fenômeno vinculado à concepção das manifestações de bullying em nossa sociedade é uma realidade fartamente constatada, carecendo ainda, contudo, tanto de pesquisa quanto aplicação de medidas mais efetivas por parte das instituições de ensino que assistem às suas manifestações perversas de forma quotidiana.  

É notado que as pessoas que sofrem bullying normalmente evitam expor o problema, dificultando a identificação do fenômeno. É necessária uma psico-educação efetiva, principalmente dentro das escolas, entretanto, que não seja elaborada e praticada de forma limitada aos seus domínios. Este debate e suas conclusões decorrentes devem ocorrer através da promoção da participação dos pais e demais envolvidos, visando à elaboração conjunta e consequente ampla aceitação da disciplina a ser estatuída pela instituição de ensino quanto ao tema. Quanto mais se debater e discutir sobre o fenômeno bullying, mais esclarecidos ficaremos com relação ao problema, favorecendo o surgimento de novas ideias e metodologias que visem à diminuição desta prática perversa.

Pensando num contexto geral, acredita-se que a prevenção e a educação efetiva que promovam comportamentos solidários permitirão uma diminuição do fenômeno e a construção de um ambiente agradável de convívio. Contudo, em cada situação há necessidade de debate e adequação quanto à metodologia a ser adotada, em razão das peculiaridades locais e da comunidade envolvida. Inclusive, constata-se que por vezes a maior dificuldade na gestão deste fenômeno no interior das instituições de ensino é, justamente, a falta de participação da comunidade, que de forma majoritária não partilha de modo efetivo da cultura e dos valores que a instituição deseja restaurar no ambiente escolar. Infelizmente, o crescente individualismo em nossa sociedade só faz muitos se colocarem no lugar do outro quando de fato lá encontrarem-se postos, vivenciando diretamente o drama (que deixa de ser alheio) no interior de suas casas.

Marcelo Á. Franco

quinta-feira, 24 de março de 2022

Desprezando a presença da morte?

 

             


              Mais uma vez ela estava presente, ou melhor, ela sempre esteve. Por mais que não a enxerguemos, está rondando o ambiente. E, quando menos esperamos, aparece num último suspiro, acompanhada sempre de algumas indagações, medos, incertezas, sofrimentos, projetos inacabados e até mesmo alívios.Quando se recebe a notícia de que se está com uma doença terminal, se pensa logo que vai morrer. E, realmente, em algum momento vamos morrer... Só que não sabemos o momento.  Quando a morte é no “outro”, acabamos de alguma forma, morrendo um pouco. Apenas presenciamos, sabendo que em algum momento esta morte será no “eu”. 

               Ainda assim, continuamos a viver como se nunca fossemos morrer, adquirimos coisas, fazemos planos e até colecionamos objetos, sem pensar que em algum momento vamos nos desprender deles. Essa é a forma através da qual a sociedade enxerga a morte. Falar de morte ainda é um tabu. Falamos de sexo, de drogas, até de ufologia, mas escondemos, velamos, não enxergamos, negamos esse fenômeno chamado morte, sempre pulando este capítulo.  Sentir a presença da morte, em um ambiente do qual ela faz parte do contexto, é algo difícil de assimilar. Por mais que saibamos que a morte é uma certeza, não conseguimos aceitar a finitude como algo natural do desenvolvimento humano. Damos tanta importância para o nascer porém desprezamos o morrer. Todavia não podemos ver o nascer sem o morrer. Até o sol nasce e morre, e mais uma vez negamos o morrer, pois quando falamos no sol dizemos “o sol nasce e se põe” e não “o sol nasce e morre”. Medo, negação ou apenas uma forma de evitar falar na palavra morrer. 

                No livro “Totem e Tabu’, Sigmund Freud relata experiências de ancestrais, nas quais a morte era respeitada, sendo sempre obedecidos rituais e costumes, de acordo com os quais até os guerreiros da época faziam oferendas para os inimigos, que eles próprios haviam abatido nos combates. Podemos fazer um paralelo entre presente e passado, constatando que muita coisa mudou e ainda vai mudar. Através dos tempos a morte foi sendo banalizada e até desrespeitada. O morrer em casa, na companhia da família, foi sendo deixado para trás, não tendo mais o moribundo o direito de escolher onde morrer, passando a se tornar apenas um objeto valioso em qualquer CTI hospitalar. 

                Heidegger diz “que o homem deve estar em permanente vigília com relação aos fenômenos que se apresentam, e que afetam diretamente no transcorrer de sua cotidianidade. A morte deve ser enxergada como uma realidade de nossa vida.” A verdade é que com toda essa evolução em termos de apego as coisas materiais, nossa sociedade foi se distanciando dos valores reais e naturais. O homem atual encontra-se despreparado para enfrentar a morte, e vê o fenômeno como um duelo, e não como uma sequência natural do viver.

 

Marcelo Ávila Franco

 

sábado, 19 de março de 2022

Resgatando o passado, o velho e clássico disco de vinil

 

    


       

Geralmente quando falamos em cultura nos lembramos de quê? Livros, teatro, cinema, dança e claro discos de vinil. Apesar de estarmos vivendo o momento da era digital, o disco de vinil também conhecido como Long Play (LP) ou apenas vinil, segue firme e admirado por alguns fãs, fiéis ao tipo de som mais puro e nem tão límpido assim.

            O disco de vinil é uma mídia que foi desenvolvida em meados da década de quarenta, geralmente confeccionado na cor preta, apesar de existirem outras cores, tais como verde, amarelo e vermelho também. Ele é feito de material plástico (cloreto de polivinila ou PVC), nas usuais 78 RPM (rotações por minuto). O vinil é um material leve e delicado, que exige manuseio a ser feito segurando suas bordas.

            Os discos viraram peças raras nos dias atuais, e seu preço tornou-se nada convidativo. Os adeptos e colecionadores muitas vezes pagam o valor três ou quatro vezes mais caro, comparativamente ao formato em CD, mas o valor sentimental e sua preciosidade valem a pena. Alguns colecionadores dizem que uma das vantagens em relação ao CD, é relacionada a sua maior durabilidade, bastando que se armazene de forma adequada para que o disco permaneça em bom estado por  muitos anos. Mas não é só essa razão que fez o LP sobreviver através dos tempos, o prazer em cultivar um hábito raro, envolve vários outros, como o de escutar o clássico chiado, característica única do LP, a satisfação em sair à procura e garimpar preciosidades, sem contar a beleza das capas que são verdadeiras obras de arte. Alguns especialistas no assunto defendem a superioridade do LP com relação ao CD, dizem eles que a gravação digital acaba cortando frequências sonoras mais altas e baixas, eliminando ecos, harmonia, batidas graves, espacialidade do som e, principalmente, sua naturalidade.

            Infelizmente nem tudo é romance com esse tipo cultura, pois a diminuição das fábricas de LPs, fez com que eles ficassem cada vez mais escassos e raros, havendo hoje no Brasil apenas um ou dois fabricantes de discos de vinil. Com isso o preço acabou ficando bem “salgado” e para ter uma raridade dessas em casa, é necessário se desapegar muito do seu dinheiro. Dadas a raridade e valorização peculiares a estes produtos, eles hoje são considerados peças raras e quem tem algum exemplar em sua residência possui uma verdadeira peça de coleção. Peço desculpas por minha ousadia, mas podemos chamá-los de “quase Picasso”, principalmente com relação aos preços de mercado.

            Sabemos que a música é uma forma de arte que encanta a todos, sendo difícil encontrar quem não goste de música. Segundo historiadores, a música era usada na antiguidade para fazer celebrações, invocação de deuses e até matrimônios. Para os mais novos, que não sabem o que é um verdadeiro LP, há de se fazer o registro de que vale a pena procurar em algum sebo e testar sensorialmente a experiência de escutar um LP. Mais que reviver a história da produção musical de uma época, ouvir um LP constitui-se na experiência mais original e fiel de contemplação da música, seja qual for o estilo, do clássico e erudito ao rock ou samba.

Marcelo Á. Franco

domingo, 13 de março de 2022

Ensaios sobre Morte e Tabu


 

“Quem não sabe o que é a vida, como saberá o que é a morte?” essa célebre frase é de Confúcio, pensador e filósofo chinês. Mas o que sabemos sobre ela? O que se pensa quando se fala em morte? Ou mesmo na palavra vida? Ainda hoje há rumores de que o homem não foi até a lua, segundo Love Kraft os gatos é que iam até a lua, fazendo viagens cósmicas. Existem muitos mistérios ainda não desvendados que assustam o homem, mas existe um que assusta e fascina ao mesmo tempo. A morte, esse fenômeno que nos rodeia desde o início dos tempos, e que vai nos acompanhar pela eternidade.

A palavra morte vem do latim mors, umas das únicas certezas que se tem na vida é a morte. Sabemos que vamos morrer, mas mesmo assim, fazemos de tudo para retardar ou mesmo driblar a finitude. É engraçado, podemos marcar a hora de um nascimento, mas não de uma morte, ela, a “morte” é quem decide o horário do desenlace, salvo exemplos de assassinatos ou homicídios que se enquadram em outro tipo de questão. Os médicos podem até dizer que um indivíduo tem alguns meses de vida devido a uma doença terminal, mas não sabem precisar exatamente a data e a hora do encontro com a morte. Esse é um fenômeno digno de mais respeito do que o atualmente a ele dispensado, mas devido à ignorância da humanidade, o respeito pela morte foi levado ao segundo plano, fazendo lembrar um dos livros de Sigmund Freud “Totem e tabu”, que revela algumas das diversas abordagens conceituais existentes sobre a morte, derivadas da diversidade histórica, cultural e religiosa de cada sociedade em seu tempo. Numa das passagens, descreve que os guerreiros quando abatiam um adversário faziam oferendas em respeito à morte do adversário, pois era forte a crença no sentido de que se não fizessem um culto a morte seriam amaldiçoados. Claro que cada época tem seus rituais e tradições, mas atualmente não esboçamos o devido respeito pelo fim da vida, fato que, aliás, provavelmente é consequência da desvalorização da própria vida.

O filósofo alemão Martin Heidegger retrata em seu livro “Ser e tempo”, as condições da morte, fala que não devemos temer a morte, pois “se eu estou aqui, a morte não está presente, e se ela está aqui eu não estarei presente, por isso ela está onde não estou então por que temê-la?” Mas não é tão fácil aceitá-la, principalmente se estivermos envolvidos com a situação, pois ao se perder um amigo ou um ente querido a finitude e a certeza da futura ausência física permanente não é nada fácil. Por isso Heidegger coloca que o homem precisa estar permanentemente em vigília, com relação aos fenômenos que se apresentam, e que de alguma forma o afetam diretamente no seguimento de sua cotidianidade.

O que tem do outro lado? Nos tempos atuais não pensamos nisso, não questionamos, nem nos preocupamos, mas e quando chegar a nossa hora? Vamos passar pelos cinco estágios da morte, negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, mas não necessariamente nessa ordem cada um vai ter a sua ordem nesse processo. E aí? Será fácil dizer a todos: “calma está tudo bem! Chegou a minha hora! Estou pronto!”, claro que não, sempre vamos nos apegar no mínimo sopro de vida, sempre teremos aquele projeto inacabado, aquele lugar que ainda não visitamos, a louça que ainda não lavei, imagina como vou deixar a louça suja para alguém lavar! Nessa hora vamos dar as desculpas mais estapafúrdias para ficar só mais um pouquinho, pois o ser humano além de apegado às pessoas, também tem apego a coisas, é apegado à vida. Mas por que não dar o devido valor antes de chegar essa hora? Por que deixamos tudo para a última hora? Então se ainda há tempo, dê um abraço em quem está ao seu lado, peça desculpas a alguém que você magoou, acorde agradecendo por você ter mais um dia de vida, agradeça apenas por estar respirando, largue o celular quando estiver em uma parada de ônibus e olhe as árvores, os pássaros, cumprimente um desconhecido, enfim: apenas viva como se fosse sempre o último dia de sua vida, pois certo é que tudo terá mais sentido num simples, autêntico e imediato viver, sem postergações, desculpas e indiferenças que ao final farão toda a diferença.

Marcelo Ávila Franco

domingo, 21 de novembro de 2021

Da lógica a persistência da memória em Salvador Dalí

 


O surrealismo foi um movimento criado em Paris em 1924, por artistas que rejeitavam os padrões que eram impostos pela sociedade burguesa da época, e fortemente influenciados pelas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud. Neste novo palco muitos expoentes artísticos lideravam este movimento, entre eles André Breton (literatura), Max Ernst (artes plásticas) e Joan Miró (artes plásticas) foram alguns dos nomes mais importantes. Mas um em especial se destacou pela singularidade de suas obras, “Salvador Dalí”, o mais importante pintor desse novo movimento que impressionava pela ausência de lógica em seus trabalhos.

Salvador Dalí era um pintor catalão, famoso, excêntrico, gênio, surrealista e egocêntrico. Suas obras trouxeram um novo olhar para o mundo das artes. Dalí foi um artista que percorreu diferentes vertentes em sua carreira, transitando entre várias formas de expressão artística, mas foi com suas pinturas que obteve reconhecimento. Esteve sempre no limiar entre o sonho e a realidade, arrancando diferentes reações de quem teve a oportunidade de admirar suas obras. Como ele mesmo gostava de dizer, o mundo das artes teve dois momentos “antes de Salvador Dalí e depois de Salvador Dalí”.

Dalí, através de suas obras, desenvolveu um estilo por ele próprio chamado de “método paranoico-crítico”, que consistia em se expressar sem as travas do pensamento racional, buscando ao máximo as ideias do inconsciente, tornando objetivo algum delírio ou paranoia que viesse à cabeça. Podemos citar aqui uma de suas obras mais importantes, “A persistência da Memória” na qual expõe um relógio derretendo. O artista também transitou por outros campos da cultura, fez trabalhos artísticos no cinema, fotografia e escultura.

Mas Salvador Dalí teve uma vida sempre conturbada, devido a seu temperamento forte. Em 1926 foi expulso da academia e declarou que ninguém lá estava à altura para avaliar suas obras. Apesar de seu temperamento difícil, Dalí tinha algo em sua vida que lhe entusiasmava, era a esposa Gala, sua musa inspiradora, a mulher de sua vida. Gala era muito bonita e foi presença marcante na obra do artista, que retratou a esposa muitas vezes em suas obras.

Mas Dalí perde Gala em 10 de junho de 1982, em Port Lligat, e entra em profundo estado de depressão, começa a se recusar a comer, além de demonstrar estar perdendo a vontade de viver. Com o tempo, sua saúde só piora, fica desidratado e com isso precisa ser alimentado por sonda naso enteral, além de ser diagnosticado com a doença de Parkinson.

Uma frase marcou o final da vida de Dalí, “Sem Gala eu não sou Dalí”, afirmou. Se tudo isso não bastasse, em 1986 o artista sofre graves queimaduras devido a um incêndio que ocorreu em seu quarto. Desde então, viveu recluso em uma cama na torre do “Museu de Figueres”. Em 23 de janeiro de 1989 morre o expoente do Surrealismo, na cidade de Figueres em decorrência de pneumonia e parada cardíaca



Marcelo Franco

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Ousando olhar por trás da máscara do homem massa



                Em tempos de crise e escassez de recursos, podemos identificar outra problemática que persiste em atravessar os tempos em nossa sociedade, “O homem massa”. Segundo José Ortega y Gasset, “Massa é o conjunto de pessoas a que podemos denominar homem médio”, caracterizando-se como um coletivo no qual cada homem não valoriza a sua individualidade, tendendo a fazer o que os demais estão fazendo de forma pouco ou nada racional. Dada sua definição, podemos com facilidade constatar que atualmente vivemos num mundo de massas, caracterizadas por serem qualitativas e vulgares. Os indivíduos constituintes destes coletivos são egoístas e egocêntricos, pois se consideram importantes na sociedade, mesmo não tendo uma opinião formada sobre as questões que movem nossa sociedade, tais como as relacionadas à política, por exemplo.

            Nessa teoria de comunicação, o homem massa não enxerga o poder de comunicação que teria em suas mãos, caso tivesse uma opinião formada. Ele está na multidão apenas por estar lá, e isto por si só para ele passa de meio a fim, tamanha a satisfação que o faz sentir-se o máximo simplesmente por estar inserido em uma multidão. Ele não se importa com o porquê de estar ali, por qual razão segue tal comportamento, e neste ponto reside o perigo de sua existência em ampla escala. Mas precisamos separar alguns pontos, pois podemos identificar um indivíduo na multidão e ele não fazer parte da “massa”. Dada esta sua essência qualitativa, podemos distinguir o que acontece, por exemplo, quando se está em um campo de futebol, momento no qual o indivíduo estaria apenas partilhando gosto ou afinidade em comum. A massa tem por outra característica importante o caminho da vulgaridade, uma vez que o indivíduo se conforma com o que já tem ou mesmo não tem. Não é uma divisão de classe, e sim de homem. Ressalte-se, devido a este aspecto, o perigo das massas. O indivíduo que ousa questionar os porquês da atualidade pode ser eliminado, sendo visto como uma ameaça apenas por pensar, e digo apenas pensar mesmo e não por pensar diferente, pois o homem massa rechaça a possibilidade do questionar e pensar, ele apenas aceita o que lhe é imposto.

            A massa hoje está muito presente nas redes sociais, nas quais os indivíduos apenas saem a curtir o que está na moda ou mesmo compartilhar um determinado tipo de assunto apenas porque todos estão fazendo. Se questionarmos esse indivíduo, ele não tem um porque de estar seguindo esse processo, apenas é parte da massificação de indivíduos alavancada hoje pela mídia eletrônica, que propicia a disseminação de massas de forma exponencial, dado seu vasto e rápido alcance. Não são poucos os exemplos de momentos na história que proporcionaram as condições ideais para o surgimento de grandes massas, mas certamente na atualidade quem lidera esse fenômeno são as mídias de grande alcance.

            O individuo que não se questiona, repise-se, é um perigo, pois basta uma informação para ele sair desesperado a fazer o que está sendo recomendado em qualquer noticiário, sem antes consultar um profissional da área e verificar se a informação transmitida está correta. Já dizia Freud: o indivíduo neurótico pensa a si mesmo, e nisso podemos pensar até mesmo nos suicídios.

                Pergunto: onde está a direção certa, qual o ponto de partida para melhorar nossa atualidade? É esse o tipo de indivíduo que queremos para nossa sociedade? Um indivíduo que não questiona o outro e nem a si mesmo? Que simplesmente aceita tudo que é imposto? Que nas eleições vota em um candidato pelo lindo corte de cabelo? Nosso país tem condições de mudar esse quadro, mas, para isso, é fundamental valorizar nossa educação, pois é só com educação que um país evolui intelectualmente e forma verdadeiros cidadãos. Assim, certamente podemos concluir que o ponto de partida para a desejada mudança nascerá no momento a partir do qual retribuirmos ao professor seu devido valor, enquanto cidadão a quem incumbe o nobre papel de moldar e disseminar a cultura, transmitindo conhecimento às futuras gerações de brasileiros.

           Marcelo Franco

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

A importância do Dasein na obra de Martin Heidegger


      Martin Heidegger nasceu na Alemanha em 1889 na cidade de Messkirch, em sua educação estiveram presentes a filosofia, a cultura e a língua grega.  Dasein pode ser traduzido como “Da”, significando “”, e “sein”, significando “ser” e o lugar onde podemos começar a responder essa questão é em nós mesmos, onde esse “nós mesmos” se apresenta como “Dasein” em Heidegger. Em “Ser e Tempo”, Heidegger descreve o Dasein sempre como a relação com o próprio ser, onde as características são existenciais, é o ente mais importante para se compreender o sentido de todas as coisas. O “ser-no-mundo” proposto pelo Dasein se projeta em possibilidades de ser que constituem o próprio ser. A compreensão do Dasein se dá na medida em que é o único ente capaz de compreender a si mesmo, exercendo o seu existir. Heidegger ainda descreve o Dasein da seguinte maneira: “A presença não é apenas um ente que ocorre entre outros entes. Ao contrário, ela se distingue onticamente pelo privilégio de, em seu ser, isto é, sendo estar em jogo seu próprio ser”.

O livro “Ser e tempo” realiza um estudo ontológico, direcionado por uma descrição existencial, onde basicamente a ideia se direciona ao homem como ser-no-mundo, onde o Dasein é esse ser no mundo, e sendo ser-no-mundo é temporal e histórico. Sendo assim, Heidegger, deixa explicito que a ontologia acabar por desvelar uma realização estrutural, onde aquilo que de certa forma possibilita muitas maneiras de um algo se tornar manifesto, mostrando tudo que pode ser percebido, sendo conhecido e entendido pelo homem. 

O ser-no-mundo é uma forma fundamental do homem que se apresenta como unidade, “embora em sua unidade possa ser interpretado sob vários aspectos” (Heidegger, 1987/2009, p. 179). Heidegger nos mostra que, o “ser-aí” como um “ser-no-mundo” está junto dos outros e consigo mesmo, além de estar junto das coisas. Sendo assim, o existir do homem é compreendido como uma perspectiva totalmente significativa compreendia por si mesmo e do que se mostra a sua volta, ou seja, em seu mundo, que acaba orientada por seu projeto de se realizar, tomado por um enredo significativo.

Heidegger de certa forma busca encontrar uma “fenomenologia fundamental”, e consegue trazer o ser como uma abertura para possibilidades, para todas as coisas. Ele questiona o ser como sendo um meio fundamental para a filosofia, e resgatá-la, o porquê ela foi negligenciada durante muito tempo o fato de ser considerada indefinível. Essas questões inspiraram Aristóteles e Platão e suas respectivas investigações filosóficas, mas infelizmente de certa forma acabaram sendo perdidas através dos tempos. Mas para Heidegger resgatar essa questão acaba por trazer outra problemática, o de saber por onde começar a responder essa questão. Pois o único lugar onde iniciamos a responder tal questão é dentro de “nós mesmos”, e Heidegger apresenta o Dasein, que se constitui de “Da-“, significando “ai”, e “sein”, que significa “ser”.

Podemos perceber que Heidegger apresenta circunstâncias para se compreender a existência do homem, tanto em condições de comportamento sadio ou mesmo em patologias, de forma a possibilitar se enxergar formas de existências concretas, direcionando possibilidades de atuações de futuros profissionais. Mas o filósofo aponta que, os estudos não são suficientes, pois seria necessário ao profissional ter a experiência para poder compreender as singularidades de cada ser humano, que são apresentados em contextos clínicos.

Heidegger trouxe a nós a discussão do ser-no-mundo, assinalando a transcendência do Dasein, constituindo a estrutura da subjetividade de como somos e como vivemos. Ele fala ainda que, o homem deve estar em permanente vigília em relação aos fenômenos que se apresentam e que o afetam diretamente no transcorrer de sua cotidianidade. Não há homem sem Dasein, não a sujeito sem mundo.


Marcelo Franco

Bibliografia:

*CERBONE, David R. Fenomenologia. Tradução de Cesar Souza. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.

 *GILES, Thomas Ransom. História do existencialismo e da fenomenologia. São Paulo: EPU, 1989.

*HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Trad. Márcia de Sá Cavalcante. 3ª Ed. Petrópolis RJ: Vozes, 1989.

*Heidegger, M., & Boss, M. (Org.) (2009). Seminários de Zollikon. Petrópolis, RJ: Vozes; Bragança Paulista, Referências Psicologia USP I www.scielo.br/pusp 258 Ida Elizabeth Cardinalli 258 SP: Universitária São Francisco. (Trabalho original publicado em 1987).

            _________________. Que é Metafísica. Tradução de Ernildo Estein. Abril cultural. São Paulo: 1973. (os pensadores)



Uma Análise Crítica da Música dos Ramones: “Bonzo Goes to Bitburg"

Ramones Fonte:  https://br.pinterest.com/pin/425238389833489467/ Os Ramones são uma das maiores referências do punk rock, sempre conhecidos ...