domingo, 7 de maio de 2023

RHCP: do Punk-Funk ao obscuro mundo das drogas

 


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Red Hot Chilli Peppers é uma banda californiana que faz uma mistura basicamente de rock com funk, eventualmente acrescida de outras esquisitices que deram muito certo. Desde o primeiro disco eles deixam claro qual a intenção musical do grupo e o som marcante do contra-baixo da banda se torna uma marca característica das suas composições. Todavia, desde os primórdios da sua trajetória musical o RHCP se torna também conhecido pelos problemas relacionados ao envolvimento de alguns de seus integrantes com drogas pesadas. Este aspecto acaba por dificultar a consolidação musical dos “Peppers”, pois de certa maneira as drogas acabam acarretando a maior parte das turbulências havidas no relacionamento pessoal entre os músicos, dificultando - e até inviabilizando  - a convivência da banda em diversos momentos ao longo da carreira.

Os Peppers lançam o primeiro álbum em 1984, intitulado “Red Hot Chili Peppers”, trazendo uma sonoridade bem mais inclinada para o funk, mas não deixando de ser uma banda de rock. O curso musical da banda segue, mas consequências do uso exacerbado de drogas acabam por acarretar atraso no crescimento dos caras e a formação inicial da banda já começa a sofrer alterações em seus integrantes por desentendimentos havidos, ora em decorrência de incompatibilidades musicais ora pelo então já conhecido envolvimento de músicos  com drogas pesadas. Já no segundo álbum, intitulado Freaky Styley (1985), as drogas começam a estremecer as relações dos “Peppers”, mesmo tendo como produtor George Clinton, um conhecido produtor e músico norte-americano (nada mais nada menos que o linha de frente de Funkadelic e Parliament). Na fase desse álbum, o vocalista Anthony Kiedis e Hillel Slovak se envolvem com heroína, e as dificuldades começam a transparecer. Apesar disso, o Red Hot Chili Peppers segue a carreira e lança “The Uplift Mofo Party Plan (1987), um dos melhores álbuns na minha opinião. Uma peculiaridade deste álbum é que eles estão com a formação original da banda, quis o destino que os integrantes originais se juntassem novamente e voltassem a tocar juntos para fazer esta obra prima do chamado “Funk- Punk”. Mas o destino também reservava um infeliz fato que deixaria marcas para sempre na carreira da banda. Com o grupo ficando conhecido no cenário musical, eles são convidados para uma turnê na Inglaterra e os “Peppers” seguem deixando sua marca com sua sonoridade de banda punk misturando rock alternativo com pitadas de rap e funk, uma verdadeira salada musical, mas com muita qualidade sonora. Mas um fato marca a trajetória da banda: o guitarrista Hillel Slovak de apenas 26 anos, então dependente do uso de heroína, sofre uma overdose da substância, causando sua morte, tendo sido encontrado sem vida em seu apartamento na Califórnia, no dia 27 de junho de 1988. Neste momento, a banda acaba dando um tempo nos trabalhos para tentar se recuperar da tragédia, que serviu de alerta para o vocalista Anthony Kiedis, também dependente da mesma substância, que aproveita o momento para buscar auxílio em relação ao vício. Infelizmente, por um imenso número de motivos e situações, muitos músicos, por  diversos motivos e situações, acabam se entregando a este tipo de vício, deixando-se influenciar pelos efeitos momentâneos das drogas. Porém, as consequências maléficas, muitas vezes irreversíveis, com frequência fazem o mundo musical perder ídolos.

Após esta parada, o RHCP retoma as atividades e, apesar de todas dificuldades enfrentadas, eles voltam com força total e lançam o álbum icônico Mother’s Milk (1989), recheado de hits e mostrando que a banda segue forte para prosseguir na carreira. Para gravar as faixas deste álbum, recrutaram como produtor musical o famoso estadunidense Rick Rubin e, para o posto de guitarrista, o jovem John Anthony Frusciante, de apenas 19 anos, mas com muito talento. Com o lançamento deste álbum o grupo ganha grande destaque na mídia mundial, realiza muitos shows e tem a carreira consolidada de forma incontestável, alcançando números impressionantes. Entusiasmados com o grande sucesso do álbum, o RHCP segue para a produção do próximo Lp, Blood Sugar Sex Magik (1991), que repete o sucesso do disco anterior. Com isso, surgem muitos grandes shows, com turnê visitando grandes estádios de muitos países. Mas com o sucesso também aparecem outros problemas, e John Frusciante resolve sair da banda, apesar de estarem vivendo o momento de maior fama e sucesso até então. Segundo ele, o tão desejado sucesso e a consequente quantidade de shows em sequência não estava mais fazendo sentido. Porém, Frusciante ao sair da banda se entrega totalmente ao vício da heroína, e, apesar de conseguir gravar alguns álbuns em carreira solo, fica depressivo e conhece a ruína, inclusive financeiramente, por não conseguir superar o vício neste momento.      

Sem Frusciante nas guitarras, o RHCP não tem outra alternativa a não ser seguir em frente e procurar outro guitarrista. Ao longo da carreira da banda muitos guitarristas passaram pelo posto: Arik Marshall, David Navarro (Jane’s Addiction), Josh Klinghoffer, Jack Sherman, John Frusciante, DeWayne McKnight, Jesse Tobias e, claro, Hillel Slovak. Parece que o rodízio no posto de guitarrista sempre foi um problema para a banda, seja por diferenças musicais ou pelo uso de drogas pesadas.

Em 1995, “One Hot Minute” é lançado com a formação da banda tendo Anthony Kieds nos vocais, Flea no contra-baixo, Dave Navarro nas guitarras e Chad Smith nas baquetas. Seguem os shows, ensaios, divergências internas e, claro, as confusões causadas em consequência do consumo de drogas pesadas, principalmente heroína. Nesta época, o guitarrista Dave Navarro e o vocalista Anthony Kiedis, em razão do consumo de heroína, começam a sumir sem dar satisfação à banda, deixando os outros integrantes em situações difíceis e muitas vezes sem saber o que fazer diante dos compromissos agendados. Com isso, a banda resolve dar um tempo nas atividades, cuidar de sanar a origem dos problemas e retomar apenas após uma reabilitação dos integrantes.

Após mais essa parada, por volta de 1998 a banda retoma as atividades, com o retorno do guitarrista John Frusciante, reabilitado das drogas, como o vocalista Anthony Kiedis. E desta nova retomada lançam o álbum “Californication” em 1999, no qual os “Peppers” emplacam mais sucessos que rendem novamente  inúmeros grandes shows. E ainda com esta formação lançam os álbuns “By the Way” (2002) e “Stadium Arcadium” (2006). A banda segue a vida tentando ficar distante das drogas, gravando álbuns e realizando ótimos shows.

Infelizmente muitas bandas se deparam com este mal da sociedade que são as drogas, um problema mundial que se faz presente em nosso cotidiano através dos tempos e por múltiplos fatores. É necessária a adoção de políticas públicas e campanhas massivas que fomentem esclarecimento e discussões para prevenção do uso de substâncias psicoativas, que além de ilegais são muito prejudiciais à saúde. Embora o tema seja um assunto que gera muitas discussões e se torna sempre extremamente delicado devido à complexidade das realidades e subjetividades envolvidas, precisamos não deixar esta discussão de lado, pois acredito que a discussão e o esclarecimento que se obtém através da divulgação de conhecimento e informações constituirão sempre o melhor caminho para superarmos qualquer tipo de dificuldade que nossa sociedade tenha que enfrentar. 

Sou um fã confesso dos RHCP, tenho em minha coleção, dois Lp’s, quatro Cd’s e três Fita Cassetes (isso mesmo fitas cassetes). Neste ano de 2023 o RHCP vai se apresentar em Porto Alegre após 20 anos, mas infelizmente não vou ter a satisfação de poder assistir esse show, que com certeza será singular e “supimpa” (gíria muito antiga kkk). Mas certamente já tenho a satisfação de saber que essa baita banda vai estar tocando em terras gaúchas, apresentando o melhor do seu repertório e com a energia de sempre.   Go ahead, Red Hot Chili Peppers!!! 

Marcelo Franco


terça-feira, 25 de abril de 2023

Charles Bukowski: sozinho com todo mundo


Podemos iniciar dizendo: seu jeito provocativo e pessimista retrata um pouco da negação social. Estamos falando de Henry Charles Bukowski. Nascido na Alemanha em 1920, aos três anos de idade Bukowski mudou-se com seus pais para os Estados Unidos, onde viveu a maior parte de sua vida, mais precisamente em Los Angeles. Poeta, romancista e contista, possui uma vasta obra literária que infelizmente ainda não foi totalmente traduzida para nosso país. Ficou conhecido por sua literatura transgressiva e provocadora e, diga-se de passagem, para quem nunca leu um conto do autor, “se você faz parte das massas, nem chegue perto”. 

Seu codinome “Velho safado”, traduz a temática que Bukowski aborda em sua literatura. Levantando a bandeira contra uma sociedade capitalista e hipócrita, Charles sempre foi avesso a tudo que vai ao encontro das massas, que elevam heróis idiotas e se espelham em pessoas vazias que apenas seguem uma tendência sem se questionar o porquê de tal comportamento.




Abordando em seus textos a falta de sentido da existência, a falta de esperança e desilusão nas relações, Bukowski é crítico e sincero em seus escritos. Em certa feita, foi perguntado sobre o que é o amor, então respondeu após acender um cigarro: “é como quando você vê a névoa de manhã, quando você acorda antes do sol nascer. É como um breve instante que depois desaparece”. Aqui podemos ver Bukowski sendo Bukowski. Com um formato simples de escrever ele cativa os mais singulares leitores, desagrada muitos enquanto encanta outros tantos. Influenciado por Fiódor Dostoiévski e Ernest Hemingway, seus livros são curtos mas impactantes aos olhos de quem os aprecia.

Na poesia “O pássaro azul” ele retrata bem a condição da face humana, denotando o quanto sufocamos nossos impulsos frente a uma condição do mundo exterior que foi construída de maneira meticulosa. Ele é duro demais com o pássaro azul que está em seu peito, mantendo-o aprisionado para que ninguém o veja. Se auto intitulando Henry Chinaski em suas histórias, Bukowski escreveu sobre o amor, sobre gatos, corridas de cavalos, os bares, mulheres, música clássica, brigas, sexo, drogas, bebida e o cotidiano dos que vivem contra as regras de um mundo falso e consumista. 

Bukowski sempre renegou o título de escritor ‘beatnik”, fazia questão de deixar claro que não fazia parte de nenhum movimento literário, se recusando a falar com William Burroughs, um dos famosos escritores da geração beat. Deixou claro que preferia seguir contando suas estórias nos subsolos do cotidiano social, trazendo muitas vezes um teor autobiográfico em seus livros, recheados de contos com narrativas surpreendentes que em geral demonstram um sincero sarcasmo. Aqui me vem à mente o primeiro livro que li de Charles Bukowski, à época de meus 15 anos, “Fabulário Geral do Delírio Cotidiano”, um livro que guardo até hoje com muito carinho. 

Bukowski foi esse escritor que segurou seu pássaro azul em seu peito, que deixava o pássaro sair muito raramente durante a noite, para que ninguém visse este lindo pássaro voar. Da obra do autor pode-se depreender que Bukowski não queria revelar sua sensibilidade e ternura como pessoa aos que viviam em seu entorno, percebe-se que esta é uma faceta que o velho poeta safado fazia questão de esconder. Viva o pássaro azul.

Marcelo Franco



domingo, 23 de abril de 2023

Sobre amanhã ainda nem pensei

 


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Os anos 80 representam um marco para a música, trata-se da década que revelou grandes bandas no Brasil e no Rio Grande do Sul. Aqui pelas bandas dos pampas, uma dessas bandas se destacou por sua irreverência, criatividade, polêmicas, radicalidade, transgressões e por se mostrar uma além do seu tempo, trata-se da banda DeFalla. Biba Meira (bateria), Carlo Pianta (baixo) e Edu K (vocais e guitarra) formaram o De Falla e participaram da coletânea “Rock Grande do Sul” - diga-se de passagem, este disco é uma verdadeira raridade em termos de música dos anos 80. Pouco antes do primeiro LP da banda, Carlo Pianta deixou o grupo, ingressando em seu lugar Flávio Santos. Nesta época houve também a entrada de  Castor Daudt (guitarra), consolidando assim a formação clássica do DeFalla. Com esta formação eles gravaram dois Lps: Papaparty (1987) e It’s Fuckin’to Borin’ to Death (1988), álbuns que traziam uma sonoridade diferente para a época, ambos gravados pelo selo Plug. 

Com um estilo totalmente eclético e confrontador, o DeFalla foi ganhando espaço e reconhecimento no cenário gaúcho e nacional. Usando de muita maquiagem e produção, a banda foi deixando sua marca pela imagem e a música, muitas vezes chamada de experimental e esquisita. Quanto à imagem, o visual arrojado do De Falla era sempre uma surpresa a cada show, sendo sempre uma incógnita o figurino a cada apresentação. Ressalte-se aqui o visual do vocalista Edu K, que se vestia de maneira muitas vezes andrógina, confrontando e provocando a sociedade conservadora da época, algo que pode ser visto atualmente como uma postura além do seu tempo (isso para os não preconceituosos). Acerca da música, uma das marcas do grupo foi a inovação na sonoridade da banda a cada novo disco lançado, indo do funk ao metal, entre tantos experimentos. Outra curiosidade que o grupo apresentou foi tocar com duas baterias ao vivo (algo bem legal), show que não tive a oportunidade de ver.

Aliás, quanto ao que pude presenciar da banda, relato sucintamente a minha experiência no ano de 1992, quando fui ver uma apresentação da banda no espaço do antigo auditório Araújo Viana, no lançamento do álbum Kingzobullshitbackinfulleffect92. Havia toda a expectativa de assistir uma performance de guitarra, baixo e bateria, e então o DeFalla aparece fazendo uma mistura de funk metal com bateria eletrônica. Desnecessário dizer que diante do impacto, simplesmente meu pensamento imediato foi de questionar sobre onde estavam os caras e a banda que eu esperava ver se apresentar. Minha limitação de entendimento na época apenas me deixou irritado e muito indignado, chegando a dizer que nunca mais perderia meu tempo com essa banda de shit.  Mas o De Falla era isso, muitas vezes lançava um álbum e nas apresentações tocava músicas inéditas, um tipo de provocação, ao meu ver, ou uma maneira simples de dizer que  estavam tocando o que queriam tocar e se divertindo. Afinal, isso foi o De Falla nos anos 80.

Hoje o DeFalla, ainda na ativa, conta com oito álbuns de estúdio, dois ao vivo, duas coletâneas, duas fitas demos (raríssimas), que registram sua carreira consolidada no cenário gaúcho e nacional. E assim como diz a letra “Acabou-se o transtorno/Uma grande intervenção/Ontem o que era/ Hoje ainda não”, “Sobre amanhã/Ainda nem pensei/Sobre amanhã/Ainda nem pensei”, sobre o Defalla de amanhã não sabemos.

Marcelo Franco


terça-feira, 18 de abril de 2023

O futuro é vórtex

        



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Vórtex deriva do latim Vortex, e segundo o dicionário, significa vórtices, forças naturais que causam turbilhões, geralmente causadas pelo fluxo do ar e nuvens e que frequentemente ocasionam grandes estragos. Tempestades de poeira, bicos de água, tornados e furacões são alguns exemplos. Mas na verdade eu não estou aqui para falar da etimologia da palavra, minha intenção é trazer um pouco da história da banda “Os Replicantes” que além de ter uma música chamada “O futuro é vórtex”, também foi responsável por um bar/gravadora/produtora/estúdio com o nome “Vórtex”, em meados dos anos 80 .

Os Replicantes é uma banda que nasceu nas entranhas dos subúrbios de Porto Alegre, sendo referência no estilo de música hard-core dos pampas. Se você não conhece, com certeza seus pais devem conhecer o refrão “Ah surfista calhorda, Vai surfar na outra bordaaaa”, foi um hit que tocava direto nas rádios portoalegrenses. No início a banda era formada por Wander Wildner (vocais), Cláudio Heinz (guitarra), Heron Heinz (baixo) e Carlos Gerbase (bateria). Um ponto interessante é que quando a banda iniciou, nenhum dos integrantes tinha intimidade com os instrumentos, mas seguiram a linha do “punk” do it yourself - faça você mesmo. A banda se inspirou nas bandas clássicas do punk rock, como Sex Pistols, Ramones, Dead Kennedys, Undertones, The Clash, entre outras… 

Segundo os próprios, tudo começou no verão de 1983, quando eles resolveram se juntar e fazer uma banda.  No princípio Claudio, Heron e Carlos resolveram começar a tocar, Wander foi o último integrante a se juntar à banda. Enfrentaram todo tipo de dificuldade que uma banda underground pode encontrar no início de carreira, pois o início da história dos quatro guris de Porto Alegre não foi diferente. Mas, por uma condição do destino, os Replicantes foi uma banda que deu mais que certo. Segundo Carlos Miranda, um famoso produtor musical, a primeira vez que viu a banda tocando, disse que a banda era puro barulho, algo ideal para o estilo punk-rock. 

Com uma sonoridade barulhenta, “cru” e direta, eles seguiram ganhando espaço na mídia, indo contra programas que faziam play-back e aceitando tocar somente em locais que pudessem tocar de maneira real (dando muita dor de cabeça para as gravadoras e produtoras). Com um seguimento de letras politizadas e sobre assuntos cotidianos, a banda seguiu e se renovou através dos tempos. Passou por algumas alterações de integrantes, e ainda hoje a banda segue firme e forte em suas convicções e ideologias. Defensores da bandeira da liberdade de expressão e da ideologia anti-fascista, sua carreira sólida pode ser conferida através de nove LPs de estúdio, um álbum ao vivo, cinco coletâneas e quatro videografias. Isso sem contar as piratarias que costumam “rolar” por aí.

Em outubro de 2022 tive a felicidade de poder conferir a banda ao vivo no bar Opinião, onde clássicos como “Sandina”, “Festa Punk”, “Surfista Calhorda”, “Só mais uma chance”, “Hippie-Punk-Rajneesh”, “Nicotina”, "Chernobyl", “Ele quer ser Punk”, “O futuro é Vortex”, “Maria Lacerda”, entre tantas outras “pedradas sonoras” foram tocados com a mesma pegada e empolgação de sempre. Hoje a banda conta com os vocais de Julia Barth e nas baquetas Cléber Andrade, ex roadie da banda, além dos irmãos Cláudio  Heinz e Heron Heinz respectivamente guitarra e baixo. O futuro é Vórtex. Vida longa ao Punk-Rock. Vida longa ao Hard-core. Vida longa aos Replicantes. 

Marcelo Franco



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

DEAD KENNEDY´S: FRESH FRUIT FOR ROTTING VEGETABLES

   



    Quando se fala em hard-core logo se lembra de inúmeras bandas do gênero, que de certa maneira aumentaram a popularidade deste estilo musical em todo cenário da música mundial. Mas tem uma delas que revolucionou o estilo de maneira única, os Dead Kennedys. Certa vez, em meados de 1987, época em que eu tinha meus 14 anos e estava escutando uma rádio infelizmente já extinta, mas que tocava todo tipo de música (a Ipanema Fm), o locutor falou sobre os Dead Kennedys e lembro de uma fala que me marcou muito: “Dead Kennedys é loucura e morte”. Fiquei pensando: o que ele queria dizer sobre loucura e morte? Foi então que decidi pesquisar sobre os Dead Kennedys para conhecer melhor sobre os caras.

    Mas como conhecer uma banda de rock, se na época não havia internet? E os únicos meios de conhecer as bandas dependiam de poder adquirir as revistas especializadas vendidas por altos valores nas bancas ou de ter poder aquisitivo maior ainda, que possibilitasse viajar para fora do país e ir aos shows que aconteciam naquela época. E eu era desprovido das duas condições, é claro. Desiludido por não poder conhecer mais sobre a banda e nem poder escutar as músicas, resolvi esquecer e ir curtindo o que havia do estilo musical por aqui mesmo, no cenário nacional. Os Replicantes estavam começando a carreira musical e, diga-se de passagem, uma bela carreira no mundo underground do hard-core.

     Nesta época, o disco de vinil e as fitas cassetes eram as únicas formas de se escutar o que e quando se quisesse. Em se tratando de bandas de estilo hard-core, recorrer às rádios que tocavam esse estilo de música (se não me falha a memória havia no máximo umas 2 rádios que tocavam bandas de punk-rock e HC) significava ter que talvez esperar horas para escutar determinada banda. Nada se comparava ao prazer de ter os seus discos de vinil para escutar em casa a hora que você quisesse, e eu era um daqueles que tinha como meta todo mês adquirir um disco de vinil ou fita cassete - o que minha “mesada” possibilitasse - porque os Lp´s na época eram vendidos por valores altos.

     Chegado o fim de cada mês, recebia a mesada, cujo valor nem lembro hoje, e tinha que escolher entre economizar para comprar os Lp´s ou gastar tudo na cantina da escola. Eu obviamente preferia economizar e gastar tudo nos discos de vinil. Mão posta no chamado “faz me rir”, lá ia eu direto na Prisma discos, loja que existe até hoje, especializada em música. Nessa época eu estudava no turno da tarde e algumas vezes (quase sempre) faltava algum professor e a escola liberava os alunos mais cedo. A maioria dos estudantes ia para os flippers jogar ou ficava perambulando pelo centro da cidade de Canoas (ir cedo para casa nem pensar). Eu preferia sempre ir até a Prisma Discos ver e me atualizar sobre as novidades do mercado da música. Como eu ia de 3 a 4 vezes por semana na loja, acabava por saber de todos os lançamentos e novidades que chegavam nas prateleiras. Porém, ao chegar na loja em determinado dia, me deparei com o álbum intitulado “Fresh Fruit for Rotting Vegetables” bem na entrada. Parecia que haviam colocado o álbum lá para eu comprar, e em minha mente algo dizia: “Marcelo, separamos este disco para você, basta pegar e se dirigir ao caixa”. Meu sentimento era de ter encontrado uma pepita de ouro ou algo equivalente, o verdadeiro e raro pote de ouro no fim do arco-íris, só faltava um "Leprechaun" aparecer, com seus 30 a 50 cm de altura e suas roupas verdes, para me atender.

    Peguei o álbum e verifiquei tudo detalhadamente: se havia encarte, se o LP estava em perfeitas condições e se o valor daquele verdadeiro “petróleo” cabia nas minhas economias. Excetuando-se a resposta quanto ao valor, às demais eram satisfatórias, mas o preço era bem “salgado”. Porém era um investimento importante, ao menos para um garoto de quatorze anos apaixonado por bandas punks, EXTREMAMENTE IMPORTANTE. Peguei o disco e fui até o caixa, onde estava o Cláudio, dono da Prisma Discos - e não um leprechaun, ainda bem! O Cláudio era um sujeito boa praça que nos atendia sempre de forma educada e gentil, o verdadeiro “gente fina” (gíria da época). Ali gastei mais ou menos 70 % de minha mesada, mas sai com o sentimento de ter adquirido uma relíquia, fato que realmente se afirmou em seguida.

     Chegando em casa fui direto ao aparelho 3x1 e coloquei o disco para “rolar” (gíria da época). Aos primeiros acordes logo me deparei com algo jamais escutado, e me veio a frase “Dead Kennedys é loucura e morte”, os caras são bons para C@#@!!o. O disco tinha diferenciais: ele era branco, diferente de todos os outros que eram da cor preta; o encarte era “gigante”, muito maior que os demais que geralmente eram do tamanho de uma folha de ofício (tinha mais ou menos um metro de comprimento). Registre-se que tenho o encarte até hoje, mas o disco infelizmente não (vendi = arrependimento eterno). Bom, o disco todo é ótimo, considerado um dos melhores álbuns de hard-core até hoje por críticos musicais e por muitas bandas (muitas até de outro gênero musical como bandas de heavy metal), e concordo plenamente. Lamento apenas a banda ter se desfeito muito cedo, os integrantes começaram a ter divergências e os Dead Kennedys encerraram a carreira após 4 álbuns de estúdio, 1 ao vivo, 1 coletânea e 1 Ep.

     Em nossas vidas sempre vai haver uma referência que vai nos moldar de alguma forma, e a música no meu caso foi uma delas. Sou movido a som, amo música, e como já diria o filósofo Friedrich Nietzsche: “Sem a música a vida seria um erro”. Apesar de minha carreira de músico não ter se mantido após a adolescência (fui baterista de uma banda de hard-core chamada “Atritos”), sigo sempre conectado às novas tendências e as velhas também, pois acredito que com música se vive muito melhor. O interesse musical e pelas bandas propicia ter inúmeras e inusitadas histórias para se contar ao longo da vida. Lembrando Kurt Cobain “Se o Rock é ilegal, me enfiem na prisão”.


Marcelo Franco

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Vanitas: as vaidades de uma vida passageira

 


Geralmente, quando olhamos a imagem de uma caveira, associamos a morte. Parece que ali está a imagem da escuridão, do abismo, do sem volta, da tristeza, do sofrimento... Mas isso se deve a que? Isso me faz lembrar os quadros “Vanitas”, obras que traziam em sua configuração sempre a imagem de uma caveira, para nos lembrar de que um dia vamos morrer. A chamada expressão natureza-morta demonstra motivos da vaidade deste mundo. Sabemos, ou melhor, deveríamos saber que nem tudo é para sempre, muito menos a vida. Mas para isso precisamos falar sobre ela, a morte, discutir, comentar, lembrar que ela, mesmo não aparecendo em imagem, está presente, esperando o momento certo para dar o “bote” e concretizar seu objetivo que é a finitude. Para isso, precisamos deixar nossas vaidades de lado, deixar de se importar com o corpo, corpo esse que vai ficar, vai virar pó. Deveríamos lembrar, que o mais importante são nossas atitudes e momentos que vivenciamos, e não a parte concreta, que em nossa sociedade atual é dado um indevido valor. Narciso olha seu reflexo no lago e se apaixona por ele mesmo, admirando sua própria imagem, acaba morrendo demonstrando o imenso valor que dava a si próprio. Os Vanitas nos lembram de que em vida devo me preparar para morte, preparar ela no meu eu, pois um dia vou sentir.

A lembrança da morte me faz recordar um passeio que fiz, em um grande cemitério de Porto Alegre, onde um historiador nos conta a memória do cemitério, curiosidades, fatos históricos e a principal ideia da visita, o respeito pela morte, principalmente respeitando a memória dos que já se foram. Uma bela frase que me chamou muito a atenção, e que está escrita em muitos mausoléus é: “Nós, ossos que aqui estamos, pelos nossos esperamos”, esta frase mostra que a vida é breve e deve ser utilizada com sabedoria.

            Hoje com as redes sócias (estou falando diretamente daquela rede social), onde todos nós colocamos fotos de acontecimentos, de conquistas, de lugares, de comidas, de bebidas, de tragédias, de catástrofes, etc. Tudo para mostrar um acontecimento e se possível que o “eu” faça parte desse acontecimento, um meio que se mostra ou a desgraça dos outros ou o lado sempre positivo de nossas “vidas”, perfeitas, que não aparecem às dificuldades, as desavenças, as fraquezas, as tristezas reais, onde geralmente sempre espera uma atenção desmerecida. Nos dias de hoje, deixamos de lado o principal, a essência do homem natural, o homem sem camadas de proteção ao real, vivenciando as frustrações e não mascarando a fraqueza de todos nós. Nisso, ela, a morte deve ser sempre lembrada como algo real e não surreal, esperando que um dia ela vá aparecer e não desaparecer.

Marcelo Ávila Franco




terça-feira, 2 de agosto de 2022

O que tem do outro lado?

 


“Quem não sabe o que é a vida, como saberá o que é a morte?” essa célebre frase é de Confúcio, pensador e filósofo chinês. Mas o que sabemos sobre ela? O que se pensa quando se fala em morte? Ou mesmo na palavra vida? Ainda hoje há rumores de que o homem não foi até a lua, segundo Love Kraft os gatos é que iam até a lua, fazendo viagens cósmicas. Existem muitos mistérios ainda não desvendados que assustam o homem, mas existe um que assusta e fascina ao mesmo tempo. A morte, esse fenômeno que nos rodeia desde o início dos tempos, e que vai nos acompanhar pela eternidade.

A palavra morte vem do latim mors, umas das únicas certezas que se tem na vida é a morte. Sabemos que vamos morrer, mas mesmo assim, fazemos de tudo para retardar ou mesmo driblar a finitude. É engraçado, podemos marcar a hora de um nascimento, mas não de uma morte, ela, a “morte” é quem decide o horário do desenlace, salvo exemplos de assassinatos ou homicídios que se enquadram em outro tipo de questão. Os médicos podem até dizer que um indivíduo tem alguns meses de vida devido a uma doença terminal, mas não sabem precisar exatamente a data e a hora do encontro com a morte. Esse é um fenômeno digno de mais respeito do que o atualmente a ele dispensado, mas devido à ignorância da humanidade, o respeito pela morte foi levado ao segundo plano, fazendo lembrar um dos livros de Sigmund Freud “Totem e tabu”, que revela algumas das diversas abordagens conceituais existentes sobre a morte, derivadas da diversidade histórica, cultural e religiosa de cada sociedade em seu tempo. Numa das passagens, descreve que os guerreiros quando abatiam um adversário faziam oferendas em respeito à morte do adversário, pois era forte a crença no sentido de que se não fizessem um culto a morte seriam amaldiçoados. Claro que cada época tem seus rituais e tradições, mas atualmente não esboçamos o devido respeito pelo fim da vida, fato que, aliás, provavelmente é consequência da desvalorização da própria vida.

O filósofo alemão Martin Heidegger retrata em seu livro “Ser e tempo”, as condições da morte, fala que não devemos temer a morte, pois “se eu estou aqui, a morte não está presente, e se ela está aqui eu não estarei presente, por isso ela está onde não estou então por que temê-la?” Mas não é tão fácil aceitá-la, principalmente se estivermos envolvidos com a situação, pois ao se perder um amigo ou um ente querido a finitude e a certeza da futura ausência física permanente não é nada fácil. Por isso Heidegger coloca que o homem precisa estar permanentemente em vigília, com relação aos fenômenos que se apresentam, e que de alguma forma o afetam diretamente no seguimento de sua cotidianidade.

O que tem do outro lado? Nos tempos atuais não pensamos nisso, não questionamos, nem nos preocupamos, mas e quando chegar a nossa hora? Vamos passar pelos cinco estágios da morte, negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, mas não necessariamente nessa ordem cada um vai ter a sua ordem nesse processo. E aí? Será fácil dizer a todos: “calma está tudo bem! Chegou a minha hora! Estou pronto!”, claro que não, sempre vamos nos apegar no mínimo sopro de vida, sempre teremos aquele projeto inacabado, aquele lugar que ainda não visitamos, a louça que ainda não lavei, imagina como vou deixar a louça suja para alguém lavar! Nessa hora vamos dar as desculpas mais estapafúrdias para ficar só mais um pouquinho, pois o ser humano além de apegado às pessoas, também tem apego a coisas, é apegado à vida. Mas por que não dar o devido valor antes de chegar essa hora? Por que deixamos tudo para a última hora? Então se ainda há tempo, dê um abraço em quem está ao seu lado, peça desculpas a alguém que você magoou, acorde agradecendo por você ter mais um dia de vida, agradeça apenas por estar respirando, largue o celular quando estiver em uma parada de ônibus e olhe as árvores, os pássaros, cumprimente um desconhecido, enfim: apenas viva como se fosse sempre o último dia de sua vida, pois certo é que tudo terá mais sentido num simples, autêntico e imediato viver, sem postergações, desculpas e indiferenças que ao final farão toda a diferença.

Marcelo Franco

Uma Análise Crítica da Música dos Ramones: “Bonzo Goes to Bitburg"

Ramones Fonte:  https://br.pinterest.com/pin/425238389833489467/ Os Ramones são uma das maiores referências do punk rock, sempre conhecidos ...