quinta-feira, 20 de junho de 2024

A Finitude Cultuada com muita vida e memória – “Dia de Los Muertos”

 


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Sabemos que a morte é um momento marcante para todo ser humano, sendo tanto sua aceitação quanto o ritual dela decorrente distintos, de acordo com a realidade sócio-histórico-cultural na qual inserida. Mas para o povo mexicano este instante é vivido de maneira mais original, se tornando para eles uma celebração com rituais marcantes que denotam um respeito singular com relação à finitude humana. Na cultura mexicana, no dia de celebração dos mortos acontecem festividades que envolvem muita música, comidas tradicionais, bebidas, flores, rituais e muita alegria. Basicamente é uma comemoração à vida e memória dos que já se foram e não se fazem mais presentes, uma verdadeira homenagem àqueles que morreram, mas jamais foram esquecidos. O modo através do qual os mexicanos demonstram sua consciência com relação ao fenômeno da morte demonstra um verdadeiro sinal de respeito e exaltação pela vida e memória de seus falecidos.

Os cemitérios são visitados principalmente no dia 02 de novembro, quando as pessoas vão até os túmulos dos entes queridos e além de limpar e colocar adornos, enfeitam com papéis picados coloridos, acendem velas e fazem homenagens de maneira satírica, mas sempre respeitosa.

A morte não é apenas um termo qualquer, de conceito fechado e intransponível ao tempo e lugar. A visão que se tem sobre ela é resultado de sua interpretação diante de aspectos lastreados em vários outros conceitos e crenças, dependendo de quando e onde o ser esteja inserido. Devemos lembrar que a morte é um momento real e não surreal, sendo que, em certos países, ela é contemplada de maneira sagrada, sendo conduzidos rituais bem interessantes.

Tomemos como exemplo o México, um país que comemora o “Dia de los Muertos”; celebração de origem indígena que homenageia no Dia dos Mortos a vida de todos os nossos ancestrais, aqueles que já não estão mais presentes entre nós, mas cujo legado é eternizado através da data. As pessoas vão até os cemitérios para lembrar e celebrar a memória e legado dos ancestrais mortos, limpando suas lápides, levando oferendas e flores, enfim, organizando todo local para manter a memória daquele familiar que já se foi. Podemos notar que, a cultura mexicana demonstra um respeito e apreço pela morte: “como diz Voltaire, que o homem sabe que há de morrer. A morte humana é um conhecimento do indivíduo”.

O Dia dos Mortos no México é uma festa que representa a cultura mexicana reconhecida mundialmente. Diga-se de passagem, o olhar mexicano acerca do fenômeno da morte traduz uma mescla de respeito, medo e fascínio, pois exalta a vida ao homenagear a memória dos falecidos, sempre de maneira respeitosa ao comemorarem as lembranças boas que estes mortos produziram em vida. Esta festividade mexicana, retrata a forma através da qual os mexicanos enxergam a morte. Existe ali uma devoção, representada inclusive por oferendas carregadas de comidas deliciosas e típicas do país, além de fotos e objetos que simbolizam os gostos e habilidades que se exaltaram em vida, tudo preparado com muita dedicação, carinho e respeito. Apesar de se tratar sobre o tema morte, esta festa é celebrada de maneira alegre, devido ao enaltecimento coletivo acerca da positividade da vida, em detrimento da saudade e negatividade geralmente atribuídas à morte do ancestral. Outro ponto interessante nesta festa é a forma com que os mexicanos a conduzem, sempre regada a muita comida e bebida, sendo que algumas pessoas chegam a deixar bebidas alcoólicas no panteão, acreditando que os mortos podem sair à noite e consumir os alimentos e as bebidas que são ofertadas para eles.

Arquivo pessoal

Podemos dizer que é uma festa totalmente original e nada convencional, pois em um primeiro momento para quem não está acostumado é muito estranho festejar a morte de um ente querido ou ancestral através de todos esses rituais. Mas após alguma observação e análise podemos entender a comemoração como manifestação de respeito pela vida e legado do falecido, aparada na crença de que a morte não é mais que uma passagem para outro plano, e que por isso, não põe fim ao sentimento, respeito e/ou carisma por quem já se foi, dignos de uma celebração.

O povo mexicano agrega um sentido à finitude através da elevação do sentido do viver. Sabemos que não é fácil enfrentar as perdas que a vida nos impõe e que a cada instante estamos morrendo um pouco mais, mas isso faz parte do ciclo vital. Na  atualidade se vive pensando somente no presente, essa resistência de negar a morte ou mesmo enxergá-la como uma afronta a nossas vidas, apenas nos torna menos preparados ao bem viver e mais suscetíveis a um maior sofrimento diante dela. A fantasia do indivíduo de se tornar eterno é apenas uma vontade que, pela natureza humana, será muito difícil tornar-se realidade. Ressalte-se, mesmo que provável seu acontecimento, traria muitos prejuízos para a sociedade como um todo.

Edgar Morin afirma que de certa forma a morte não é vista como um sentimento traumático. Assim trazemos a maneira de pensar dos mexicanos que vão contra a forma comum da maioria das culturas, que cultuam apenas a vida enquanto vivos e sem aceitar a finitude. Os mexicanos entendem a finitude através de um viés totalmente contrário à concepção dominante atualmente. Eles aceitam que a morte é um fenômeno presente e que envelhecer faz parte da vida humana e que, por isso, sofrer por essas razões se torna algo fora de uma verdadeira realidade. O evitamento da discussão sobre o morrer tornou-se uma tradição que se perpetua através dos tempos, tornando o homem cada vez mais resistente à reflexão que conduziria a um maior entendimento e consequente aceitação da finitude, bem como a um melhor viver.

O ser humano em geral segue de todas as maneiras tentando burlar a morte, muitas vezes mentindo para si próprio, tentando fugir do inevitável, seja através do simples adiamento de uma viagem ou mesmo ao viver uma vida de forma inconsequente ou desorganizada, não validando a possibilidade de seu acontecimento, enquanto vivo. Inclusive, com muita frequência verifica-se que esta falta de consideração da hipótese de morte ao longo da vida do indivíduo acaba por trazer muitos problemas de ordem prática aos que sobrevivem após o falecimento. Este medo todo de considerar a alternativa de morte ao longo da vida demonstra uma angústia em geral atrelada ao sentimento de não querer antecipar o que pode ou mesmo vai acontecer. O ser só enxerga a finitude como real quando tem a possibilidade de se deparar com ela e esse enfrentamento só acontece quando se chega de forma próxima e consciente diante da morte.

Assim, a festa do dia dos mortos pode ser vista como uma forma de cultuar o ciclo vital, um momento de preparar o ser para a finitude, dando continuidade à existência humana através do enaltecimento da existência dos ancestrais, lembrando que o ciclo tem um início, meio e fim, e que isso não pode ser alterado, apenas vivenciado. Aflorar na consciência humana pensamentos sobre a finitude é importante pois é somente este o caminho para o ser humano entender melhor a finitude, que é mortal e que isso é parte imutável da natureza humana.

Marcelo Franco

Bibliografia:

ARIÈS, P. O homem diante da morte. São Paulo: Editora Unesp, 2014.

MORIN, E. O homem e a morte. Rio de Janeiro (RJ): Imago, 1997.


quinta-feira, 13 de junho de 2024

InFinitOS

 


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NúMEros, tUdo se perCEbe em NúmeroS?

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QuE hORas são?

Qual O vAlor?

QuaNTOs laDos tÊm?

Qual o Peso?

QuaNTo meDe?

Qual a diSTânciA?

QuAL TEMperaTuRa?

QuAntO TEmpo?

Qual VOluMe?

QuanTO de Área?

QUantos ANos-luz?

QuantOS, quaNtos, QUantos....

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E VOCÊ? Quanto sENte?

Marcelo Franco

 

quarta-feira, 5 de junho de 2024

O vazio e o luto

 

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          Quando sentimos a perda de alguém querido enfrentamos, após, o vazio que se faz presente. O filme “Um ninho para dois” retrata o sofrimento de um casal após a perda de uma filha. Lilly e Jack estão em condições diferentes, mas vivenciando o mesmo sentimento. O casal enfrenta o vazio que se faz presente e o luto, que é inevitável. O casal demonstra a perda do controle de seus sentimentos e deixa as emoções falarem mais forte diante da morte da filha, fato que representa ainda uma inversão do ciclo da vida, gerador de uma dor que não se pode mensurar. Somente alguém que vivencia esse triste fato pode dizer o quanto é sofrível enfrentar esta situação.

            Lilly se mostra mais organizada emocionalmente seguindo a rotina de trabalho, mas o vazio e a tristeza se fazem presentes durante todo seu dia; já Jack resolveu se internar, pois demonstra culpa pelo ocorrido e maior fragilidade emocional. Ambos estão em luto, processo que torna o indivíduo mais suscetível a sentir-se fragilizado e no qual os sentimentos se mostram mais fortes que a própria vontade levando, por vezes, as situações a se tornarem temporariamente fora de controle.

            As fases do luto (Kubler-Ross, 1998) se fazem presentes na vida de ambos, a negação, a raiva, a barganha, a depressão e a aceitação serão inevitáveis, vão se constituir em etapas emocionais subsequentes e decorrentes do episódio da morte do ente querido. A negação que é o primeiro estágio do processo toma conta de ambos, pois tentam negar que o fato tenha ocorrido, nesta fase o indivíduo ganha tempo para elaborar o que aconteceu, evitando assim um choque de realidade, a dificuldade de assimilar este fato que é advinda da situação trágica. Neste momento também podemos verificar atitudes que podem chegar ao extremo, negando totalmente o ocorrido, como no caso de Jack que tentou suicídio.

A partir daí a raiva aparece, como a forma da impossibilidade do ego em manter a negação e até mesmo o isolamento. O indivíduo vai expressar sua raiva pelo ocorrido, e vai projetar no ambiente externo toda sua raiva e revolta com o que aconteceu. A raiva pode ser externada por qualquer motivo, onde o indivíduo por muitas vezes nem sabe por que está tendo certa atitude agressiva e acaba por se arrepender depois. Lilly externa raiva em vários momentos do filme, de maneira desproporcional e intensa, diante de motivos fúteis, mas se arrependendo logo após.

O vazio deixado por alguém que se foi e que não vai voltar se torna muito difícil de aceitar, tendo em vista tratar-se de acontecimento indesejado e não escolhido. Algumas pessoas não conseguem encarar esse fenômeno de maneira natural e enfrentam maior dificuldade de aceitação e com isso o luto leva mais tempo para passar. Quando se percebe que o sentimento de raiva não tem mais sentido, aparece a barganha, onde se busca negociar o inegociável, mas ela se faz presente para todos que atravessam um luto. De alguma forma, a negociação é a busca por algo que não é possível, possibilitando assim manter uma visão não realística dos fatos, mesmo tendo iniciado de certa forma a aceitar a realidade. A barganha só é possível iniciar em pessoas que já estão começando um contato razoável com a realidade.

A depressão, que é a quarta fase deste processo, é um estágio no qual a pessoa está elaborando o luto, a tristeza, sofrimento intenso e a introspecção são intensas. É a fase do sofrimento profundo, do medo, da desesperança, do desolamento, emoções que são comuns dentro do estágio depressivo. Vemos aqui um comportamento natural, pois é evidente a constatação de que, negar não resolveu nada, se revoltar muito menos e de que tentar negociar o inegociável não teve efeito, o caminho natural é o estágio da depressão, onde outro sentimento que se faz muito presente é o da perda.  

Na fase seguinte do luto, teremos a aceitação, onde em razão do tempo e das vivências trazidas por cada fase, não resta mais nada ao indivíduo senão aceitar o ocorrido. Esta é a fase onde a pessoa se permite viver a aceitação e uma paz interior se faz presente, o que não a caracteriza como uma fase ou estágio feliz, mas uma etapa final. Só chegam a esse estágio os pacientes que passaram pelos estágios anteriores, lembramos que a chance disso ocorrer é maior se o indivíduo tiver apoio durante todo processo.

No caso da Lilly e de Jack, ambos necessitam de apoio psicoterapêutico, pois demonstram sofrimento e fragilidade emocional, cada um com suas características e formas de ver o ocorrido.  É fundamental que o processo de luto não seja bloqueado, pois é um processo natural do ser humano, não devendo ser reprimido. Segundo Lothar, para que se tenha um processo sadio se faz necessário que não seja reprimido o luto, pois só assim o indivíduo consegue se desintoxicar e possibilitar a si um novo começo. O luto quando reprimido pode se transformar em transtornos psíquicos e doenças futuras. Uma escuta ativa se faz necessária, pois ao escutar atentamente o indivíduo, demonstramos que estamos dando o devido valor a sua dor, e segundo Lacan, a presença do terapeuta já é terapêutica.

No filme, notamos que os personagens tentam de forma singular buscar um novo começo, mas precisamos lembrar que cada indivíduo age e pensa de maneira diferente e o tempo de cada um deve ser respeitado. A fase da readaptação vai surgindo aos poucos, o enlutado vai se reorganizando de forma gradativa, e começa e reencontrar alegria em certas atividades, o que não é diferente com Lilly e Jack. Lilly em certo momento se desfaz dos móveis da filha, trocando por uma poltrona velha, nesta cena é nítido que a personagem está se proporcionando uma nova chance. Aqui se nota um sintoma de que o enlutado está começando um processo de ordenamento de seu caos interior e optando por viver novamente. Até porque o enlutado ao se libertar interiormente consegue deixar o falecido repousar em paz.

Uma vez devidamente vivenciadas todas as etapas do processo de luto, constata-se, ao término - como no final do filme -, pessoas libertas para buscarem novas ligações afetivas e readaptando-se a uma nova vida. 

Marcelo Franco

       

Bibliografia:

·       Kubler-Ross, E. (1998). Sobre a morte e o morrer. 8º Ed. São Paulo: Martins Fontes.

 

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Interpol - estreitando laços familiares


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    Falar da banda Interpol me faz lembrar do ano de 2020, época de COVID-19, isolamento, confinamento, leituras e muitas horas de reflexão. Mas o que a banda teria a ver com este momento? Interpol é uma banda norte-americana formada em Nova York no ano de 1997. Suas músicas lembram bandas como Joy Division e Echo & the Bunnymen, imaginando-se o resultado da mistura dessas duas bandas, a audição das canções da Interpol revela sequências de um som “supimpa” e harmonioso.

E é através dessa mistura que me deparei mais uma vez com a constatação sobre o poder de influência  de nossas raízes sobre o que nos envolve na atualidade e nossa percepção a respeito. Lembro-me que durante a Pandemia, escutei muito Interpol e com todo tempo que eu tinha disponível, pude pesquisar e conhecer toda discografia e história da banda. Músicas como “Evil”, “C’mere”, “Slow Hands”, “Obstacle 1”, “All the Rage Back Home”, “Rest My Chemistry e “Mammoth” faziam parte de minha play list, e seguem sendo até hoje.


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            Mas onde quero chegar com esse papo? Bem, dia desses eu estava levando meu filho para a escola, em Sapucaia do Sul, e me surpreendo com ele colocando justamente a banda Interpol para rolar no aparelho de som do carro. No primeiro momento, fiquei sem entender, e não falei nada, mas a surpresa tomou conta de mim ao constatar que meu filho gosta do que eu gosto, pois Interpol é uma banda não comercial. Não toca em rádios e muito menos é feito uma propaganda para promover a banda no Brasil. Mas de onde esse gosto musical? Neste momento meu questionamento se tornou um orgulho, “meu filho gosta de música boa!!!” ele poderia seguir na onda de estilos musicais que prefiro nem mencionar, mas não, o guri curti rock, e da melhor qualidade. Sei que os gostos musicais do meu filho não são comuns, pois para um menino de dezesseis anos, apreciar os concertos de Franz Liszt é algo totalmente fora da realidade. Infelizmente encontrar hodiernamente quem aprecie As Quatro Estações de Vivaldi ou mesmo as composições de Ludwig van Beethoven não é comum, principalmente em nosso país.


Fonte: Arquivo pessoal

            Lembrando hoje deste dia no qual me deparei com o Murilo colocando Interpol para escutarmos durante o trajeto para a escola dele, entendo que presenciei a comprovação de que as raízes de nossa essência nos mais diversos aspectos são, em diversos graus e através de diversas maneiras, influenciadas pelo contexto em que se está inserido. Claro que a influência não se dá exclusivamente pela música, mas confesso que a música de alguma maneira me conecta demais com meus filhos. Ambos desenvolveram preferências musicais baseados em muita coisa que eu escuto, e isso me deixa extremamente feliz.


Fonte: Arquivo pessoal

            No início deste texto eu mencionei algumas músicas do Interpol, e verifiquei que das sete músicas que mencionei, ele colocou quatro para escutarmos naquela ocasião. Lembro-me ainda que durante o trajeto ele começou a me contar sobre as características e influências da banda. Chegou a mencionar que um dos integrantes da banda é formado em Filosofia (baixista – Carlos Dengler, que infelizmente deixou a banda em 2010).

            Depois de algum tempo, e após realizar algumas reflexões, percebo que sempre estive perto de meus filhos, mesmo que distante fisicamente como na época da pandemia. Eles de alguma maneira internalizaram parte de meus gostos musicais, aflorando sentimentos bons que a música é capaz de nos proporcionar. Como nos diria o filósofo Friedrich Nietzsche “Sem a música a vida seria um erro” (Nietzsche, 1888).  Em relação ao Murilo, registro ainda que dia após dia reconheço que minha influência em muito ultrapassou a seara da música, sendo possível constatar formas de agir diante do cotidiano social em que vivemos que em muito se identificam com as minhas.

            Mas retornando à música e à banda Interpol, sinto uma felicidade oceânica por saber que em vários momentos que ainda teremos, sejam eles curtos ou longos, vamos poder escutar muito Interpol e construir belos diálogos relacionados à música, sejam estes sobre Interpol ou qualquer outra banda que tenhamos afinidade ou não. Termino citando “I see a sign, it says: Okay” (traduzindo, Eu vejo um sinal que diz: está tudo bem), frase da música “Rest My Chemistry”.  Te amo meu filho.  

Marcelo Franco

* Crepúsculo dos Ídolos. Trad: Paulo César de Souza. São Paulo: Cia das Letras, 2006.  

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Aconselhamento Pastoral

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   Buscando em um dicionário qual a definição da palavra aconselhamento, podemos obter a explicação de que: “é o ato ou efeito de se aconselhar”, onde a palavra “aconselhar” é definida por dar ou pedir conselho (s) a (alguém); ouvir conselho(s); orientar(s); orientar(-se). Ou também pode ser: auxílio ou orientação que um profissional (pedagogo, psicólogo etc...) presta ao paciente nas decisões que este deve tomar com relação À escolha de profissão, cursos etc., ou quanto à solução de pequenos desajustamentos de conduta.

   O termo aconselhamento pastoral  tem sua origem da lingua inglesa, da palavra “counseling” que era usada em meados do século XX diretamente no contexto norte-americano, esse tipo de atividade precisou romper algumas barreiras, entre elas saber se esta tarefa seria uma atividade de um pastor ou de uma pastora,  mas outros conteúdos receberam uma atenção tais como, clínica pastoral (acompanhamento pastoral na área da saúde), psicologia pastoral (o interpretar pastoral frente uma condição psicológica) e a poimênica.

    O objetivo maior do aconselhamento pastoral é ajudar o próximo a tratar suas dificuldades emocionais e os mais diversos conflitos, assim melhorando a qualidade de vida do indivíduo. Além disso, fortalecer os pensamentos frente a percepção da realidade, evitando atitudes de inadequação e distorção das situações que vai enfrentar frente a sociedade que está inserido.  Conviver em sociedade nos coloca frente a inúmeros medos e incertezas, sempre vamos enfrentar desafios de diferentes níveis. O conselheiro poderá utilizar recursos da psicologia, pedagogia e filosofia, para proporcionar apoio a quem recebe o atendimento.  Mas os recursos bíblicos seguem básicos como uma direção, assim como a palavra de Deus. Podemos dizer que o aconselhador é,

um vocacionado, um chamado por Deus a trabalhar em favor da vida e da Saúde, presença amorosa e libertadora de Jesus que cura. Pessoa rica em humanidade, que comunica proximidade, acolhida e carinho; capaz de escutar e de acolher o outro em sua história pessoal, sua individualidade e oferecer-lhe hospitalidade.em seu coração. [...] É uma pessoa discreta, não impõe sua presença, está atenta para captar o que o outro quer e necessita. Respeita os silêncios e confidências. Reconhece sua pobreza, seus limites e está consciente de não poder resolver todos os problemas, porém, tem um coração capaz de acolher o sofrimento e comunicar consolo, serenidade, paz. (CELAM, 2000, p. 55)

    Nunca se sabe quando vai acontecer uma crise emocional, seja ela de forma repentina ou mesmo gradativa que vai se instaurando aos poucos, é certo que em algum momento vamos precisar de uma apoio ou mesmo uma escuta mais qualificada. Para isso, o aconselhamento  tem como objetivo preparar os indivíduos quando chegar esse momento, aproveitando sempre com isto fortalecer um crescimento pessoal frente as adversidades da vida.

    Quando acontece uma situação que tira o indivíduo de sua rotina, o seu dia já começa a ter alterações, o comportamento muda e as reações iniciais podem ser de: ira, tristeza, ansiedade, angústia, frustração, medo, negação, depressão, entre outras. Aonde tudo isso, reflete na mudança de seu comportamente, recorrente de uma descoberta de doença grave, a perda de um ente querido, ou até mesmo a perda de um empregou ou término de relacionamento.

    Alguns pontos devem ser levados em conta, pois todas as pessoas terão em suas vidas essas situações difíceis, e vão se desorganizar emocionalmente. Como todas as pessoas são diferentes umas das outras, cada indivíduo terá reações diferentes sendo elas emocionais ou corporais, jamais se descarta ajuda médica, até mesmo para se diferenciar uma dor física provocada por doença, ou uma dor emocional que é recorrente de uma somatização (dores sem motivo aparente, ou um resultado de sofrimento emocional). O perigo em uma crise emocional, é quando o indivíduo não assimila a dificuldade, e processos disfuncionais começam a acontecer na vida dessa pessoa, tais como: negação, raiva, barganha, depressção prolongada, busca por alcool e drogas, até tentativas de suicídio, entre outras condições. E com isso a responsabilidade só aumenta, onde o êxito desta relação vai depender da comunicação e da escuta do aconselhante.

    Frente a isso, o indivíduo necessita de ajuda para poder enfrentar as situações adversas, e o aconselhador terá a função de realizar o primeiro acolhimento, com uma escuta atenta e respeitando o ritmo do paciente. Neste primeiro momento, os temas podem ser os mais diversos, e a fala do indivíduo parece estar se desviando do real motivo, mas essa é a oportunidade que o aconselhador tem de demonstrar a real importância que ele demonstra pela dor do paciente, e assim fortalece o vínculo entre ambos, se iniciando assim a primeira fase do acolhimento.

    Num contexto mais amplo podemos notar uma sociedade muito fragiliazada emocionalmente, onde é “proibido” demonstrar ser frágil, mesmo em uma rede social, se observarmos, vamos notar uma corrida de quem é mais feliz, fotos de viagens, compras a todo instante, almoço em locais requintados e até o famoso culto ao corpo que leva as pessoas realizar procedimentos estéticos de altos valores. Mas tudo isso, tem escondido uma falta real que jamais será suprida com nenhum desses tipos de comportamento, aonde quanto mais se insere neste comportamento aumenta o sofrimento pessoal. Uma sociedade alienada e ao mesmo tempo totalmente solitária, não tem nem mesmo tempo de enxergar que está adoecida e muito menos reconhecer que precisa da ajuda de um apoio emocional.

   Geralmente as pessoas escondem suas dificuldades, muito comum no primeiro momento da conversa de atendimento, seja ela de qualquer linha terapeutica, o paciente falar de outras questões, para somente após dois ou até três atendimentos se descibrir realmente o que está desestruturando aquele indivíduo. E após este momento inicial, o aconselhador consegue a confiança do sujeito, e assim o acolhedor é o único a entrar na questões mais íntimas e particulares desta pessoa. Para isso é necessário que este acolhedor seja sensível e esteja preparado para poder lidar com as dificuldades, e proporcionar um crescimento e fortalecimento, para quem está em sofrimento. Em todo aconselhamento pastoral é essencial honestidade, por ambas as partes, para assim acontecer uma enfrentação honesta.

    Além disso, se presume que o aconselhedor respeite os horários e a dinâmica da instituição que estiver vinculado,  conhecendo as patologias, tipos de tratamentos e técnicas de intervenção. Seu trabalho é ter domínio na arte de ouvir atentamente, realizando acolhimento e compreenção, construindo assim um ambiente favorável para que o interlocutor possa expressar seus sentimentos de maneira tranquila e confiante.

Marcelo Franco

*CELAM, Guia da Saúde Pastoral para a América Latina e o Caribe. São Paulo: Loyola, 2000.

OBS: conheci esta abordagem no mestrado em Teologia, apesar de eu seguir a linha psicanalítica,  achei o método de ajuda bem interessante para proporcionar apoio a quem está em sofrimento emocional. 

 

terça-feira, 2 de abril de 2024

Psicoterapia, sensibilidade e silêncio

 

*El Silencio

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    O silêncio dentro da comunicação, ao contrário do que se pensa, é bem importante. É objeto de estudo dentro da psicanálise e sempre muito valorizado. Mas podemos estender a qualquer tipo de atendimento emocional, pois é visto como um ato de se comunicar que vai além do âmbito de estudos fonéticos. Em nossa sociedade atual, verificamos uma tendência a uma necessidade contrária, pois todos querem falar, mesmo que não se tenha algo a dizer. O silêncio perde sua importância nos dias atuais. O efeito que o silêncio tem em uma conversa entre duas pessoas, é esclarecedor pois é neste momento que ele se mostra mais que uma palavra, ele desvela a realidade e, sem dizer nada, afirma o que se nega a dizer.

    Mas não se pode descartar que o silêncio pode vir como efeito em outras condições, a própria resistência ou mesmo elaboração de uma fala, trazendo algumas dúvidas para a condição de um tratamento. Isso vai depender muito da percepção do condutor do atendimento e de sua habilidade e paciência, que são essenciais neste tipo de situação.

    Além disso, o silêncio é uma forma de expressar compreensão, onde ambos respeitam o silêncio que se faz presente em um atendimento, no qual cada um terá seu tempo e não existe uma regra para esse tempo. Em alguns momentos pode-se não entender o silêncio alheio, pois é necessário perceber o contexto no qual se faz este silêncio. Por isso a importância de se saber respeitar o momento de cada um, pois o psicoterapeuta está entrando no mundo de outra pessoa, e neste mundo existem valores e expectativas diferentes das que se possa ter.

    Se lembrarmos que em certos momentos de nosso dia, o silêncio pode ser constrangedor. Um exemplo que podemos citar é relativo aos elevadores nos quais entramos e não conhecemos as pessoas que estão ali presentes. Nos poucos minutos dessa pequena viagem o silêncio é bem desconfortável. Hoje as pessoas tem a necessidade de falar, querem falar da sua vida, de seus projetos, de suas viagens, de suas relações, de seus pets, entre outras questões pessoais, mas fica a dúvida: quem escuta, quer ouvir? Pois escutar alguém é uma arte, é ter uma sensibilidade com o sentimento do outro e em nosso cotidiano atual todos querem falar, mas poucos se disponibilizam a ouvir, e quem fala quer uma escuta, não quer falar a toa. Além disso, o silêncio pode dar conotação a situações difíceis tais como: pedido de socorro ou mesmo a vontade de trazer uma situação importante. Quando em uma situação de atendimento o silêncio se faz presente, devemos ter em mente que nossa atenção deve estar redobrada para entender o que esse silêncio está nos transmitindo.

    A presença do silêncio deve sempre vir acompanhada de uma escuta atenta e para isso é necessário paciência e cuidado, nem sempre é preciso se dizer alguma coisa, e quebrar este silêncio, neste instante, pode significar a interrupção da oportunidade do psicoterapeuta pensar na situação. A reflexão tão necessária na tentativa de esclarecer os porquês de tal condição não deve ser interrompida, mesmo que não chegue a uma resposta imediata, o indivíduo precisa desse espaço, até mesmo para buscar uma aceitação.

    O psicoterapeuta precisa ser sensível para observar tudo que o paciente possa trazer dentro do silêncio, para manejar a situação de forma tranquila e sem apressar esse instante. Mesmo dentro do seu silêncio que o protege de certa forma, o indivíduo pode estar recordando algumas lembranças, e as elaborando, apesar de não estar dizendo nada, pode estar buscando aceitação ou entendimento do processo que está enfrentando.

Marcelo Franco

* El Silencio, Pintura por Mario Sarabí (2012)

sábado, 30 de março de 2024

HQ de Neil Gaiman: a morte nos quadrinhos

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*Capa do livro "Morte" de Neil Gaiman

As histórias em quadrinhos tem sua origem no fim do século XIX, um tipo de produto que possui uma linguagem própria, e acaba por se estender em diversos países. Um tipo de produto midiático que teve seu início de publicação em jornais periódicos com um teor humorístico, e estendeu sua expressão à vários países. Mas foi no século XX que as chamadas HQs começaram a sofrer adaptações e teve ampliada seus segmentos de temas que eram abordados em suas páginas.



A HQ “Morte”, de Neil Gaiman trás em sua temática um caráter mais literário, algo que distancia o público infantil, e acaba por conquistar o leitor adulto, que de certa maneira é mais exigente e criterioso. Além disso, as graphic novels que apresentam seus personagens retratados em quadrinhos, quase sempre atraem mais os adultos, devido suas temáticas romanticas serem mais complexas e apresentar centenas de páginas. As graphic novels geralmente são comercializadas em livrarias, apresentando um material mais trabalhado e luxuoso, o que acaba por elevar mais o seu custo.



Nesta história em quadrinho Neil Gaiman aborda uma temática mais obscura e fascinante ao mesmo tempo, pois mexe com um fenômeno que ainda é rodeado de incertezas e especulações, na verdade a única certeza desta experiência é de que um dia todos vamos passar por ela um dia.

O universo de Neil Gaiman se destaca entre as demais histórias em quadrinhos tradicionais, seu estilo de narrativas traz um conteúdo mais filosófico e poético, nos proporcionando uma leitura mais requintada e ao mesmo tempo profunda em termos de crítica literária. Na edição encadernada “Morte Edição Definitiva” ele reúne histórias que abordam temas atuais, assuntos que nos rodeiam durante nosso dia, e dando ênfase a uma personagem que mesmo tendo uma a simbologia do fim da vida no imaginário cotidiano, aparece de forma carismática e humanizada.


“(...) Eu não queria uma Morte que sofresse pelo seu papel, ou tivesse um prazer mórbido com seu trabalho, ou que não se importasse. Queria uma morte que eu fosse gostar de encontrar, no fim. Alguém que se importasse. Como ela.” (GAIMAN, 2014, p. 264).


Neil Gaiman é um famoso ficcionista britânico, nascido em 1960 que vive desde 1992 nos Estados Unidos. Como ele mesmo fala, foi influenciado desde muito cedo por autores como Edgar Allan Poe, C. S. Lewis, G. K. Chesterton, entre outros escritores. Trabalhando como jornalista que descobriu sua vocação para escritor, entre suas obras mais aclamadas estão: Lugar Nenhum, Mitologia Nórdica, Coraline, O Oceano no fim do Caminho, Good Omens (Belas Maldições), o Livro do Cemitério e The Absolute Sandman.



Os temas que Gaiman aborda em suas histórias incluem conceitos de valorização da vida, até o recomeço das mesmas. Vivemos em uma sociedade que banaliza a morte, pois ela se faz presente predominantemente de forma violenta em todas as instâncias de nosso cotidiano, sendo reforçada por uma mídia mal intencionada que sobrevive da audiência decorrente de notícias impactantes, mesmo que mórbidas e/ou violentas e que acaba incentivando todo esse comportamento nefasto de forma subliminar. A história em termos gerais faz refletir a respeito do que é a vida, conduzindo à conclusão de que todos os atos que tomamos têm um significado e responsabilidade no universo em que estamos inseridos e que todas as vidas são importantes, indiferentemente do modo de viver, classe social ou gênero. E negar isso é ir contra a própria existência do ser humano em sociedade.

Marcelo Franco

* GAIMAN, Neil. Morte Edição Definitiva. São Paulo: Panini Books, 2014.

    


Uma Análise Crítica da Música dos Ramones: “Bonzo Goes to Bitburg"

Ramones Fonte:  https://br.pinterest.com/pin/425238389833489467/ Os Ramones são uma das maiores referências do punk rock, sempre conhecidos ...