sábado, 19 de dezembro de 2020

John Wayne Gacy, "o palhaço assassino"

            


             O presente texto visa abordar os principais elementos comportamentais observados no livro “Killer Clown-retrato de um assassino” e no filme “Gacy”, que conta a história real do assassino em série “John Wayne Gacy”.  O livro e o filme descrevem o comportamento de um indivíduo a cima de qualquer suspeita em nossa sociedade. O comportamento criminoso, que se define pela incapacidade de respeitar os direitos alheios, mostrando sua necessidade de violar as normas sociais, prevalecendo sua falta de remorso e a indiferença pelo sentimento do outro. Gacy sempre matou pelo próprio prazer, tinha o prazer de torturar suas vítimas. Freud (1969) mostrou, no decorrer do “O Mal-estar na Civilização”, que o potencial de destruição é algo da própria natureza humana, que o ser humano é inclinado ao mal e que atos perversos são próprios de nossa organização.

 O indivíduo que comete estes delitos geralmente adota um comportamento cruel, possui baixa tolerância à frustração e desprezo por normas e regras, além de demonstrar um alto nível de impulsividade. O transtorno anti-social segue um padrão de desconsideração que pode iniciar na infância ou no começo da adolescência, e continuar a se manifestar na idade adulta. Estes indivíduos usam as pessoas para chegar a um objetivo, são verdadeiros atores, seguindo três objetivos básicos: poder, status e prazer.

O livro Killer Clown - Retrato de um assassino” traz uma temática investigativa, onde é narrado pelo promotor “Terry Sullivan” e o jornalista “Peter Maiken” que trazem com mais detalhes toda história dos assassinatos, realizando um passo a passo dos crimes cruéis que Gacy cometeu em quase sete anos. Já o filme “Gacy” (2003), conta a história de John Gacy, como um dos maiores psicopatas que a história norte-americana já conheceu, ele matou mais de trinta jovens, e os deixava no porão de sua casa, jamais levantando qualquer suspeita de alguém.

Essa história ganhou uma projeção mundial em todos os canais de comunicação, vindo a ser considerado um dos mais famosos assassinos em série de todos os tempos, e sendo assim a cultura pop não deixou por menos. Hoje temos inúmeras matérias sobre esse assunto, que tem o alcance em filmes, revistas, reportagens, matérias especiais, blogs, sites, canais no you tube e até podcats.

O palhaço assassino, John Wayne Gacy Junior, nasceu em 1942, em Chicago, nos Estados Unidos. Fantasiava-se de palhaço em festas e era membro do Conselho Católico e da Defesa Civil. Ele atraía as vítimas para sua casa com promessas de emprego em construção civil ou pagamento em troca de sexo. (NEWTON, 2008) Começou a matar perto de fazer 30 anos. Suas vítimas eram sodomizadas,
torturadas e mortas, geralmente sufocadas ou estranguladas. Algumas vezes vestia-se como seu alter-ego, o palhaço Pogo, e/ou lia alguns trechos da Bíblia em voz alta, enquanto torturava suas vítimas eleitas. Foi graças ao forte odor emanado de seu porão que a polícia descobriu 28 corpos embaixo de sua residência, e outros cinco corpos ao redor de sua casa. Foi executado por injeção letal em 10 de maio de 1994. John Wayne Gacy Junior dizia: “Um palhaço pode ‘se sair’ só como um palhaço”. (CASOY, 2004, p. 283)

            O tema assassino em série, mesmo nos dias de hoje tem aparecido com mais frequência na mídia, sendo temas de séries, quadrinhos e filmes. Algumas pessoas ainda hoje, de forma absurda, pensam que esse tema é “coisa de cinema”, mas se pesquisarmos sobre o assunto, percebermos que esse mal já assola nossa sociedade desde o século XIX, onde as ruas de Londres foram aterrorizadas com um assassino intitulado Jack, o estripador. E de lá para cá podemos enfileirar vários nomes como Adolf Hitler, Unabomber, Zodíaco, John Gacy (nosso personagem de estudo) Ted Bundy, Ed Gein e Jeffrey Dahmer (esses dois últimos as tendo inspirado o filme consagrado “Silêncio dos inocentes”). Chegando até mesmo na realidade brasileira com Marcelo Costa Andrade, mais conhecido como “Vampiro de Niterói” e o motoboy estuprador “Maníaco do Parque”.

Levando em consideração que criminalidade é um fator social, não podemos esquecer que crueldade é outra realidade, e no caso do assassino em série, ele sabe o que faz, como faz e com quem faz. Podemos dizer que o indivíduo com esse tipo de transtorno é totalmente razão e nada de emoção. Seus delitos vão aumentando consideravelmente, até transpor a barreira limite, e assim satisfazer suas fantasias mais extremas e insaciáveis, cometendo seus atos criminosos de tempos em tempos, satisfazendo assim suas vontades pessoais.

O comportamento cruel desse indivíduo, demonstra total falta de empatia com os outros, deixando um rastro de destruição por onde passa. Não esquecendo que, no tempo em que “John” ficou preso esperando sua sentença, ele se dedicou a pintura artística, pintou personalidades famosas – como Al Capone, Charles Manson, John Dillinger e Hitler -, mas o tema principal de suas pinturas sempre foram os palhaços.  E acabou vendendo alguns por valores bem altos, se tornando um sujeito na época muito popular e até cultuado por algumas pessoas. Dê maneira inacreditável, suas pinturas foram exibidas em várias galerias norte-americanas, onde os valores giravam em torno - de US$ 100,00 a US$ 20.000,00 – para adquirir uma tela do assassino em série. O Serial Killer Gacy chegou a receber um lucro de US$ 140.000,00 por suas obras vendidas.

Casoy (2004) faz uma distinção, que pode ser considerado um aspecto classificatório entre os psicopatas: os chamados psicopatas organizados e os desorganizados. Segundo suas observações, os assassinos organizados têm uma inteligência média para alta, são astutos, sexualmente competentes, trazem sua arma e instrumentos que vão usar no delito, entre outras características; já os desorganizados têm inteligência abaixo da média, um distúrbio psiquiátrico grave, são sexualmente incompetentes, sempre deixam as cenas dos crimes desorganizadas e selecionam suas vítimas por acaso, diferentemente dos organizados.

Quanto ao modus operandi, Casoy (2004) estabelece que seja determinado, observando que arma foi utilizada no crime, o tipo de vítima selecionada e o local escolhido. O modus operandi é dinâmico e maleável, na medida em que o infrator ganha experiência e confiança, diferente da assinatura do agressor em série, que é sempre única, como uma digital, e está sempre ligada à necessidade do serial em cometer o crime.

O comportamento instintivo dos assassinos em série é sempre muito evidente. Comportando-se como animais, praticam seus atos por impulsos irresistíveis, sem qualquer tipo de emoção, conflito ou mesmo culpa. São predadores que de tempos em tempos vão à caça, em intervalos de tempo que dependem muitas vezes de sua necessidade de matar. Costumam ser metódicos e quase nunca cometem erros, pois sabem das consequências que esse tipo de conduta pode ocasionar. (CASOY, 2004)

Esse tipo de assassino segue sempre uma forma de cometer seus crimes, pratica seus assassinatos das mais variadas formas possíveis, mostrando muitas vezes o que o ato de matar alguém representa para ele. Suas vidas acabam girando em torno dos crimes, verdadeiras obras do mal. Acabam se comportando sempre descontroladamente, tipo uma “locomotiva” desgovernada, ignorando leis e regras sociais que são necessários para se viver em harmonia na sociedade. O Serial Killer se encaixa na classe de indivíduos que nascem para fazer o mal, sem a capacidade de se colocar no lugar do outro, mas que conseguem passar despercebidos em sociedade, sendo verdadeiros “camaleões” que só são descobertos depois de sua obra do mal estar pronta.  

Marcelo Ávila Franco

 Referências: 

CASOY, I. Serial killer, louco ou cruel? 2. ed. São Paulo: WVC, 2004.

______. Serial killers, made in Brazil. 2. ed. São Paulo: WVC, 2004.

FREUD, S. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1969. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud; v. XI).

NEWTON, M. The Encyclopedia of Serial Killers. New York: Checkmark Books,
2008.

SAUNDERS, C. Gacy. EUA: DEJ Productions, 2003.

 SULLIVAN, T. MAIKEN, P. Killer Clown - Retrato de um assassino. DarkSide Books, 2019.

 

 

sábado, 13 de junho de 2020

Diálogos contemporâneos


                                                                        


Ainda nos tempos atuais, fazer uma separação entre religião e espiritualidade exige um esforço além do estudo científico. A crença e a investigação não estão demarcadas claramente, a sociedade ainda reforça referências subjetivas que não se apoiam em nenhum embasamento científico. A forma como um Deus é visto, tanto nos dias de hoje como no passado, demonstra como a subjetividade tem um forte poder de influenciar a vida atual, demonstrando que pode vir a distorcer emoções e comportamentos.

O termo psicologia, por incrível que pareça tem como raiz etimológica psiché (alma) + logos (razão, estudo). Inicialmente a proposta de estudo da psicologia seria a compreensão do espírito, mas esse estudo em algum momento acabou se perdendo com o passar dos tempos, se concentrando mais na razão científica e concreta, infelizmente. O sentir, intuir, atuar, saber e amar que são sentidos primordiais do homem verdadeiro (onde não existe o mal e o bom, mas sim apenas o puro, o verdadeiro, o transparente), continuam abafados e esquecidos, uma vez que foram castrados no homem pensador, que descarta de todas as formas olhar para si mesmo.

Os paradigmas da psicologia contemporânea não permitem que esse mesmo homem que hoje se enxerga de forma alterada e que, na verdade, nunca deixou de ser ele mesmo, reconheça que a espiritualidade seja um fenômeno verdadeiro e que, como qualquer outro tipo de estudo, apresente suas peculiaridades e subjetividades. Na atualidade, a ciência política moderna considera o ser separado da natureza, ou mesmo de seu estado de natureza. Nietzsche aponta esse como um dos principais enganos da teoria política moderna. Sendo assim, podemos identificar que um dos maiores equívocos da psicologia em geral, foi não ter acoplado a visão espiritual na mudança de paradigma do homem como um ser biopsicossocial. Esqueceu-se que ao seu redor não existem somente coisas concretas e comprovadamente científicas, e sim também os fenômenos inexplicáveis. Segundo, Ludwig Feuerbach, o homem não é radicalmente livre, pois sua condição é a natureza. De alguma forma, podemos compreender nesse sentido o medo do homem de aceitar o próprio inexplicável, (como esse mesmo homem vai acreditar em um Deus? pois Deus não se explica! Ou se explica?).

Por outro lado, temos que a “neofobia” – ou o medo do novo, do desconhecido -, sempre foi um desafio para a humanidade, sempre trazendo a insegurança quando percebida, no momento em que o indivíduo se depara em um novo território de conhecimento. O transpor barreiras, o desconstruir de forma benéfica, para após construir algo melhor, sempre foi visto como ruim. Mas segundo Friedrich Nietzsche, não enxergar o mal é deixar de lado o recomeçar. Algo como não oportunizar ao homem transpor essa barreira. Nietzsche observa que o negativo é o fermento indispensável de toda criação. Empenhar-se em eliminar esse mal-negativo é, portanto matar no homem o princípio vital da superação de si. “O novo, de qualquer modo, é o mal, visto que é o que quer conquistar, derrubar as fronteiras, abater as antigas devoções; só o antigo bem!” (livro Gaia Ciência)

Percebe-se que a conexão da nova psicologia e da antiga está engatinhando ou mais aquém, no útero dessa junção. Com isso, fica lançado o desafio para todos profissionais envolvidos nestas áreas do conhecimento: desenvolver novos estudos e abordagens que de alguma forma possam abranger não somente a razão, mas também relacionar a espiritualidade e religião, em possíveis estados alterados de consciência.

 

Marcelo Ávila Franco

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Do inferno para a terra: Lucifer Morningstar

                                                      


                                                        


“No princípio... O anjo Lúcifer foi expulso do céu. E condenado a governar o inferno para sempre. Até que ele decidiu tirar férias.”

E assim começa a narrativa da série Lúcifer em Los Angeles em 2016 D.C. Das HQs para as telas, a série Lúcifer chegou conquistando inúmeros fãs.

Logo no início da primeira temporada, já se pode ter uma ideia do que o seriado vai nos oferecer em termos de entretenimento. A primeira cena é de uma policial abordando o diabo, e nesse momento Lúcifer usa seus poderes e suborna o policial, aonde durante toda série ele busca nos desejos dos humanos as suas fraquezas, e assim consegue provar que, as pessoas tem pensamentos diferentes para não dizermos pecaminosos.

Lúcifer é um tipo clássico de narcisista, onde coloca sempre a busca de imagens artificiais, ignorando a essência e a profundidade dos sentimentos.  O personagem se caracteriza por peculiaridades, onde faz uso dos outros para assim gratificar suas necessidades pessoais e egocêntricas, e após descarta as pessoas por não terem mais nenhuma utilidade a ele. Seguindo nesta linha, é possível constatar que, podemos delinear um paralelo entre o comportamento do personagem e o transtorno de personalidade narcisista. Constatando nas atitudes do personagem, um comportamento que podemos encontrar em nossa sociedade e que, na maioria das vezes é negada por quem demonstra esse tipo de comportamento.

Lúcifer Morningstar gosta de falar de si mesmo, ressalta sempre suas qualidades, contando vantagens nas situações que acontecem em seu cotidiano na terra, não se importando com o sofrimento que causa nas pessoas e chegando até humilhar os outros para se sentir melhor. O transtorno de personalidade narcisista, que explora as relações interpessoais, e que é mais comum nos homens, trás os seguintes sintomas em seu comportamento: a incapacidade de lidar com críticas, o desrespeito pelos sentimentos alheios, à necessidade de se sentir admirado, se achar grandioso e desprezar as outras pessoas. Além disso, os indivíduos que tem esse tipo de transtorno se tornam arrogantes e acreditam serem especiais, o que para nosso personagem da série Lúcifer que também é conhecido como, “estrela da amanhã”, “filho da alva”, "o que brilha", "o que trás a luz", ou simplesmente o tradicional Diabo ou Satanás como é conhecido por muitos. Sendo assim, se verifica que, o principal protagonista da série demonstra um comportamento clássico narcisista.

Sigmund Freud, pai da psicanálise, introduziu o termo no discurso psicanalítico para fazer referência à escolha sexual dos invertidos, como eram chamados os homossexuais na época. Freud acrescenta, que as investidas libidinais poderiam ser direcionados ao próprio ego ou a objetos, e assim constatamos em nosso personagem (Lúcifer) que passa a maior parte de seu tempo na série televisiva, realizando festas regadas com muita bebida, mulheres e tudo que envolva luxuria e pecados que direcionam um imenso desejo e culto ao corpo. Além disso, o anjo caído é dono de uma casa noturna na cidade de Los Angeles, que como dono e pianista passa seus dias tocando sucessos de Jazz.  

Mas a série trás uma temática interessante, onde Lúcifer passa por momentos difíceis e conflitos pessoais, tendo que procurar uma terapeuta para poder entender o que está acontecendo com seus sentimentos. E meio a tudo isso, o protagonista ajuda a bela detetive (Chloe Deker), a desvendar crimes que acontecem na cidade de Los Angeles, e assim a série se desenrola de forma a fazer o diabo entrar em crise de existência, por não entender muitas vezes o comportamento dos humanos. Mas um ponto crucial no enredo, é que ele não nunca mente e sempre fala a verdade, e apenas usa o desejo mais obscuro dos seres humanos para poder assim condená-los. Ah sim, e ele adoro ver o circo pegar fogo, fica claro eu seu comportamento. E você, tem algum desejo? Esconda-o, pois o diabo está na terra.

 

Marcelo Ávila Franco 

 

Bibliografia:

FREUD, S. (1914). Sobre o narcisismo: uma introdução. IN;___. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas. 1. Ed. Trad. Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974, v. p.85 – 119.

 


segunda-feira, 8 de junho de 2020

A morte do Capitão América: e as fases do luto dentro da cultura pop

                                                              

             


Uma lenda é contada através dos tempos, modificando-se pela imaginação do povo, que aos poucos acaba por delinear novos contornos à tradição. Quando falamos do personagem fictício “Capitão América”, logo vêm à tona em nossa mente adjetivos originados por seus feitos, seu modo de ser, sua bravura e espírito guerreiro.  Nas histórias em quadrinhos sempre foi um homem que arriscou sua vida por seu país, o que por si só já o fez ser considerado um herói.

            Quando sentimos a perda de alguém querido, passamos por algumas fases, chamadas fases do luto. Na história fictícia “Morre uma lenda” a situação de perda da figura do Capitão América, vivenciada pelos heróis envolvidos nessa trama, evidencia que as fases do luto estão presentes nos sentimentos dos outros heróis e que, por mais que sejam super-heróis, eles também têm sentimentos iguais aos de pessoas comuns.

            Desde o início da história, podemos presenciar os heróis perdendo o controle dos sentimentos e deixando as emoções falarem mais forte. A morte de Steve Rogers é mostrada como um episódio importante e muito triste, principalmente para os seguidores e amigos do Capitão América. O enredo se desenvolve de forma bem pesada a partir deste tabu da sociedade chamado, “a morte”. Capitão América é assassinado e sua morte se torna um mistério, pois nem as autoridades e nem os heróis conseguem descobrir quem foi o autor dos disparos que mataram o herói, fato que torna a trama mais misteriosa e enigmática.

            As fases do luto tornam o indivíduo mais suscetível a sentir-se fragilizado nesse processo, no qual os sentimentos se mostram mais fortes que nossas próprias vontades os quais, por vezes, tornam a situação temporariamente fora de controle. A negação, raiva, barganha, depressão e a aceitação se constituem etapas emocionais subsequentes e decorrentes do episódio da morte de alguém querido.

 Já no início da história a negação toma conta de alguns personagens, que por não aceitarem a morte do Capitão América, sentem dificuldades em assimilar os fatos que envolvem a tragédia. Nesta etapa, este sentimento leva o personagem Wolverine à atitudes extremadas, em busca da identidade do assassino de Steve Rogers, negando totalmente o ocorrido.

Na sequência dos capítulos são apresentadas as fases seguintes do luto, surgindo a raiva como a forma da impossibilidade do ego em manter a negação e o isolamento. A pessoa expressa sua raiva pelo fato que ocorre, projetando no ambiente externo toda sua revolta com o acontecido. Nesse momento da história, alguns personagens estão jogando pôquer, tentando se distrair de alguma forma, para esquecer o momento difícil, o que não acontece com certeza, pois externam sua raiva por qualquer motivo que venha a surgir durante o jogo, externando de maneira intensa e desproporcional este sentimento, diante de eventuais motivos fúteis.

            Sempre é muito difícil aceitar a morte, é um acontecimento sempre indesejado em qualquer contexto, sendo que algumas pessoas conseguem encarar esse fenômeno com naturalidade e outras nem tanto. Então, quando se percebe que o sentimento de raiva não teve sentido algum e a negação também não alterou a situação, aparece a barganha. Neste momento se busca uma forma de negociar com o inegociável, imutável. Em nossa história, esta fase do luto é nitidamente apresentada na figura do Homem de Ferro que, em determinada situação, faz uma proposta astuta para o Gavião Arqueiro, na qual idealiza se tornar o Capitão América e, assim, tentar enganar a população e diminuir de alguma forma o sentimento de perda. Mas Gavião Arqueiro, apesar de chegar a avaliar a proposta, acaba não a aceitando em consideração e respeito à figura do Capitão América.

            Que o Homem Aranha sempre foi fã um do Capitão América isso já se sabe, e com ele as fases não seriam diferentes. Nosso jovem herói fica preso à fase da depressão. De forma introspectiva e isolada, ele passa pela fase de sofrimento profundo. Tristeza, desolamento, culpa, medo e desesperança, são emoções comuns nessa fase. Nesta etapa, a pessoa fica introspectiva, fragilizada e acaba se isolando de tudo e de todos. É um comportamento posterior e natural, após tornar-se evidente a constatação de que negar não resolveu, se revoltar também não e de que a barganha não teve efeito. Como caminho natural, restando somente o sentimento da perda, adentra-se na fase da depressão.

            Na fase seguinte do luto, em razão do tempo e das vivências por ele trazidas em cada fase do luto, as emoções já não estão à flor da pele, Os envolvidos entram na fase de aceitação. Os Vingadores, O Quarteto Fantástico, os Jovens Vingadores, pessoas famosas e outras menos famosas se fazem presentes na despedida do Capitão América, e a realidade da morte não se tem mais como negar. O que interessa nessa fase é que a pessoa se permita viver a aceitação em paz e com dignidade, o que não a constitui ou caracteriza essa fase como um estágio feliz, mas sim como uma etapa final na qual não se identifica a expressão de sentimentos de forma intensa.

Em “Morre uma lenda”, podemos notar que as fases do luto aparecem de forma organizada, mas isso não equivale dizer que as fases vão ocorrer sempre de forma sequencial para todos, pois podemos vivenciá-las de forma desorganizada.  Pode-se ir direto a fase da barganha, e em seguida retornar a fase inicial da raiva sem algum motivo aparente, pois cada pessoa vai ter uma forma singular de encarar a morte.

Marcelo Ávila Franco

*Capitão América: Morre Uma Lenda. Coleção Oficial de Grafic Novels Marvel, Nº51. São Paulo, SP: Editora Salvat do Brasil Ltda, 2014.

*Kübler-Ross, E. Sobre a morte e o morrer: o que os doentes têm para ensinar aos médicos, enfermeiras, religiosos e aos seus próprios parentes. São Paulo, Martins Fontes, 1996.

 

 


Lex Luthor: poder, status e prazer

                                                                            


Partindo de interpretações do filósofo Michel Foucault, podemos traçar relações de poder simbólico, que são atuantes em diferentes sociedades. Os jogos de poder estão presentes nas narrativas das histórias em quadrinho, sempre repletas de conflitos entre heróis e vilões. Nesse sentido, os vilões são parte marcante nessa relação, e alguns deles não passam despercebidos por sua refinada característica singular de personalidade anti-social. Que vivem em busca de poder, status e prazer.

Lex Luthor adora o poder. Quem já leu qualquer Hq que o personagem esteja presente, sabe disso. Mas de onde vem todo esse desejo incontrolável de buscar esse poder? O prazer  que o poder proporciona a algumas pessoas é surpreendente, e Lex está entre essas pessoas.  Este é um dos três principais itens que formam a personalidade de um psicopata. Seria então Lex Luthor um psicopata ?

Luthor é um personagem rico e poderoso que faz de tudo para buscar seus objetivos, o que poderia ser enquadrado até como um Maquiavél, pela forma que age com quem ousa atrapalhar seus planos, sem ter piedade de ninguém, sempre visando o poder, statos e prazer, ingredientes básicos de um clássico psicopata. Ele não tem nenhum super poder e não esconde sua identidade, mas é provido de uma inteligêncial sem igual.

Apesar de ser proprietário da corporação LexCorp, não parece satisfazer-se com o que está a sua volta, precisa conquintar o que não está ao seu alcance, apenas por conquista, soberba ou por puro sentimento de possuir o prazer.

                Sua obsessão para conquistar coisas singulares o torna um personagem diferente, arquitetando um plano que domina todo enredo das histórias, no qual tem atitudes cada vez mais obscuras e suspeitas. Sem deixar de ser ele mesmo, com um comportamento refinado mas desconcertante, vai deixando um rastro de destruição por onde passa, sempre buscando dominar alguma coisa, objetivando poder, statos e prazer com suas atitudes.

            Os psicopatas são assim, não tem sentimentos, se importam apenas com eles mesmos, não se preocupam com sentimento, não demonstram empatia pelo outro. Vivem em sociedade como predadores, desenvolvem uma personalidade diferente daquela de quando estão buscando seus objetivos, parecendo pessoas normais, convivendo entre as pessoas. São capazes de cometer seus crimes e mesmo após serem pegos, negarem veemente que não os cometeram, demonstrando dissociação extrema pois fica dificil desconfiar de alguém cometendo crimes barbaros quando se mostram como pais de família, com esposa, filhos, empregos fixos e até mesmo fazendo trabalhos voluntáreos com idosos e crianças carentes.

Apesar de todo esse comportamento complicado e perigoso para quem vive em sociedade, para as histórias em quadrinhos ele tem uma importância diferente, pois se transforma em um elemento crucial para o enredo das histórias e trás um sentido singular na vida dos super-heróis, pois sem eles o herói não teria uma busca.

            Mas fica a pergunta: apesar de toda maldade, frieza, falta de empatia e sua busca contínua pelo poder, sem Lex Luthor nas histórias do Superman, as HQs teriam algum sentido?

 

Marcelo Ávila Franco

 

 

 

 

 


domingo, 7 de junho de 2020

Hey Ho Let's Go! Joey Ramone e a sua convivência com o TOC

                                                                        


Em 19 de maio de 1951 nascia Jeffrey Ross Hyman, conhecido por “Joey Ramone”, vocalista dos “Ramones”, uma das bandas mais importantes do cenário Punk Rock mundial. Ainda jovem, enquanto Joey morava no Queens, bairro novaiorquino,  conheceu os amigos Tom Erdélyi (Tommy Ramone), Douglas Glen Colvin (Dee Dee Ramone) e John William Cummings (Johnny Ramone), que viriam a formar com ele a banda Ramones.

            Mas a vida de Joey não foi fácil, o astro do rock conviveu com o “TOC” ou Transtorno Obsessivo Compulsivo, transtorno mental que se caracteriza pela presença de obsessões, compulsões ou ambas. Estar preocupado excessivamente com sujeira, lavando as mãos o tempo todo, ter pensamento focado na contaminação que lugares públicos como banheiros e restaurantes possam causar são exemplos de situações que causam sofrimento aos portadores do transtorno. Isto sem contar outros hábitos ou impedimentos, como arrumar uma cama repetidas vezes, não passar perto de cemitérios com medo que possa acontecer uma catástrofe, que são igualmente comumente observados no comportamento de quem convive com o Transtorno Obsessivo Compulsivo - TOC. Este tipo de comportamento repetitivo, também conhecido popularmente como “mania” constitui-se por manifestações que torturam as pessoas que com ele convive de forma quotidiana, deixando o indivíduo muitas vezes incapacitado de conviver socialmente, devido ao desconforto e sofrimento que acabam por acarretarem ainda mais prejuízos pessoais. O TOC vem acompanhado de medo, ansiedade e culpa, tomando muito tempo na rotina diária do indivíduo.

            No caso do vocalista Joey Ramone, o TOC foi diagnosticado ainda na adolescência. A convivência de Joey com os outros integrantes da banda não era fácil, os comportamentos obsessivos lhe causavam desconforto com os outros músicos, Joey acabava muitas vezes até mesmo ficando hospedado em um andar diferente no hotel, devido à necessidade de abrir e fechar a porta do quarto para atravessá-la inúmeras vezes. Outras “manias” incluíam acender e apagar a luz do quarto repetidamente, deixar a torneira da pia aberta por horas e ficar descendo e subindo várias vezes uma escadaria passando a mão no corrimão, contando os degraus de forma desenfreada. Com esse comportamento Joey atrasava a banda nas turnês, pois por muitas vezes estavam todos o esperando dentro da Van para seguir viajem enquanto Joey estava ocupado com os rituais que não conseguia deixar de executar. Para evitar atrasos nos check outs dos hotéis nas turnês, o empresário muitas vezes impedia Joey de tomar banho, para que o vocalista não sentisse a necessidade dos rituais que persistiam em acompanha-lo diariamente.

            Resolvi fazer essa matéria não apenas por ser um fã da banda, mas para mostrar que o TOC não tem fronteiras, não está restrito a classes ou a qualquer critério de seleção. As pessoas podem ser acometidas indiferentemente da condição social, cor, raça ou credo. É preciso ter um olhar mais refinado para esse tipo de transtorno, que causa um sofrimento imenso tanto para quem sofre de TOC quanto para os familiares que convivem com o paciente. São muitos os famosos que sofrem desse transtorno e com certeza você que agora está lendo deve conhecer algum parente ou mesmo amigo que sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo. O TOC tem tratamento, cada caso deve ser avaliado individualmente, mas medicamentos e psicoterapia constituem a essência da fórmula para se conseguir um retorno à vida normal, além do apoio da família e amigos, sempre.

 Marcelo Ávila Franco


O jovem Freud e a interpretação dos sonhos

                                                                       


Que as histórias em quadrinhos podem assumir um importante papel no desenvolvimento cognitivo e intelectual do indivíduo, já está comprovado. Mas, além disso, as HQs continuam se destacando no campo educacional, onde as imagens e as sequências de desenhos atraem e auxiliam de forma singular a melhorar o desenvolvimento do indivíduo na medida em que agrega vocabulário e acrescenta maior agilidade ao seu raciocínio.

A Arte sequencial, área pertinente ao estudo e pesquisa dos quadrinhos, permite que de alguma forma a criança, mesmo antes de aprender a ler, compreenda o sentido da história animada. Os quadrinhos ajudam a criança pensar melhor, aguçam sua observação, aumentam a concentração, desenvolvem a criatividade e a ambientam com as letras e outros sentidos cognitivos.

Mas podemos enfatizar que não apenas as crianças e adolescentes se aproveitam da leitura de quadrinhos. Hoje, com o crescimento dos tipos de HQs e surgimento das diferentes linhas e estilos de histórias, outra faixa etária está se interessando e beneficiando com esse tipo de leitura, os adultos. Atualmente já encontramos lojas especializadas em histórias direcionadas ao público adulto, que é um forte consumidor de HQs e seus diversos formatos.

Entre os formatos de HQs, existe um que é interessante pelo seu formato que vem sempre desenhado em preto e branco, trata-se dos Mangás, que são de origem japonesa e seu consumo cresce absurdamente entre os apaixonados por quadrinhos. Nessa linha podemos citar uma versão do livro A interpretação dos sonhos de Sigmund Freud, que traz de forma interessante o início das pesquisas desse importante psicanalista, em versão mangá.

A interpretação dos sonhos, de Sigmund Freud é um livro onde o psicanalista pesquisa os sonhos dos pacientes. A edição da obra que irei comentar é mais singular, pois consiste em uma versão pocket em quadrinhos, ou melhor, dizendo, em Mangá, um gênero de história que mescla a cultura japonesa clássica com as HQs ocidentais.

Nessa versão pode-se conhecer um pouco da história de Sigmund Freud, desde o início de sua carreira como estudante e pesquisador. Narra sua dificuldade em descobrir o que acontecia com pacientes que se diziam doentes, quando os médicos da época não acreditavam em suas doenças, pois não entendiam o que se passava, e atestavam “eles não tem problema algum, mas sentem sintomas de doença por imaginação ou fantasia” (pag. 15). Os conflitos com outros pesquisadores da época que discordavam das ideias de Freud, passando por seus próprios conflitos pessoais e sua auto avaliação também são abordados pelo autor. Além disto, o livro contém relatos de palestras que iniciaram os estudos da psicanálise em 1917, originando conceitos que deram fundamento a outros títulos importantes como “O mal-estar na cultura” (1930). O mangá reúne algumas das principais ideias do psicanalista, que explora a vida em sociedade e o inconsciente, não deixando de citar passagens importantes da trajetória deste importante pensador que viveu sua vida para o estudo do comportamento humano. Essa obra consubstancia o limite entre os artigos pré-psicanalíticos de Sigmund e o início da psicanálise.

O formato da publicação, com aparência de quadrinhos, inova e desperta a atenção dos adolescentes, motivando a leitura, levando ao mundo do adolescente um texto mais solto e leve, mas não menos comprometido.

Sigmund Freud nascido em 6 de maio de 1856 na Áustria, hoje República Tcheca, era filho de Jacob Freud e Amalie Nathanson, que tinham origem judaica. Freud casou-se com Martha Bernays com quem teve seis filhos, entre eles Anna Freud, futura psicanalista.  Podemos descrever informalmente o quotidiano de Freud como o de um homem que trabalhava por longas horas e adorava ficar com os filhos durante as férias de verão.

O jovem Freud desde cedo demonstrava que seria um grande pesquisador, seu empenho e dedicação nos estudos mostravam o que o futuro psicanalista desejava. Sua esposa mostrava-se uma mulher dedicada ao lar, possibilitando que o esposo se dedicasse ao máximo às pesquisas e casos, o que lhe tomava o maior tempo de seu dia-a-dia.

Essa história em versão mangá, que tem a tradução da versão japonesa feita por Drik Sada, é dividida em seis capítulos, que evoluem desde a introdução da psicanálise, abordando o desbravamento da mente e a interpretação dos sonhos, seguindo através da abordagem dos movimentos da psicanálise, até culminar com desfecho que ressalta o teor de “O mal-estar na cultura”. No início, Freud é um simples estudante de medicina, que junto a outros médicos tentava desvendar os mistérios e possíveis causas de doenças ainda não entendidas pela medicina da época. Ganhou uma bolsa de estudos, mas por ser judeu descobriu que nesta instituição teria dificuldades para desenvolver suas pesquisas e ser aceito como outro estudante qualquer “Não há talento que alcance o sucesso num ambiente que não o reconhece” (pag. 28).

O mangá segue mostrando as dificuldades do jovem cientista em descobrir o que realmente acontecia aos pacientes que sofriam, mostrando-o sempre dedicado e de certa forma obcecado pelo conhecimento e por futuras descobertas. Ele viaja para Paris, onde participa dos seminários do professor Charcot que estuda sintomas de histeria por meio da hipnose. Freud não consegue as respostas que procura, mas a experiência foi válida e nosso jovem Freud segue estudando a mente humana e volta para casa, momento a partir do qual começa a atender pacientes.

Histeria vem do grego “Hysteron”, médicos da época se valem de termos antigos para vincular os termos científicos. Freud segue seus estudos, mas encontra resistência de alguns colegas da época, o que lhe faz se dedicar ainda mais aos estudos. Nisso surge o caso de “Anna O”, que se tornaria um ponto importante para as futuras descobertas do jovem Freud, que segue atendendo seus pacientes segundo suas convicções e estudos particulares.

“Sinta-se livre. E vá contando o que vier à cabeça. Por mais banal que seja. Pode tentar associar uma coisa a outra, para ir recordando” (pag. 109). Assim começavam as sessões de Sigmund Freud, chamando futuramente de “livre associação” ou “associação livre”. Com o desenrolar da história, Freud consegue aprimorar o método e fazer descobertas muito importantes para a ciência, batizando a metodologia por ele desenvolvida de “Psicanálise”.

Ao longo do mangá, seguem aparecendo às descobertas do jovem Freud, tais como relação do complexo de Édipo e conceitos fundamentais como Id, Ego e Superego, além de outros como os relativos à Narciso, sublimação e negação. Além do seu rompimento com o jovem Carl Gustav Jung, que já não tinha a mesma sincronia para futuras descobertas, as pequenas diferenças conceituais entre eles não puderam ser mais ignoradas, fazendo cada um seguir o seu caminho.

Freud ainda enfrentaria a primeira guerra mundial, “Era a eclosão da Primeira Guerra Mundial..... uma batalha que expôs todo o instinto cruel que o homem, ao longo da história, foi incapaz de domesticar”. (pag. 191) Sigmund Freud após todas essas dificuldades seguiria com suas pesquisas, seminários e palestras ao longo de sua vida.

Marcelo Ávila Franco

*A interpretação dos sonhos / Sigmund Freud; 1. ed. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2015.

 


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